14 mar

Sete em cada dez conteúdos do Twitter sobre o Covid-19 são irrelevantes ou aumentam o medo no Peru

Depois que a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia de Covid-19, mais de 172 mil interações entre tuítes e retuítes foram geradas no Peru em dois dias. 68% das mensagens focaram na propagação do vírus ou outras questões que não a prevenção da infecção

Atualizado em 23 de março, 2020 às 11:22 am

Uma análise qualitativa das reações no Twitter à declaração da pandemia global do coronavírus mostra que dois terços das mensagens ou interações na rede sobre o assunto aumentam o medo ou a tensão sobre o avanço da doença, incluindo notícias com dados que se qualificam como alarmantes, mas nenhuma informação útil sobre prevenção ou recomendações para enfrentar a crise, enquanto os casos no Peru totalizam 38 de acordo com os últimos relatórios oficiais.

O OjoPúblico extraiu 172.300 tuítes e retuítes referentes ao Covid-19 que ocorreram entre 11 e 12 de março, após a declaração de uma pandemia, que coincidiu com o anúncio do presidente Martín Vizcarra sobre medidas extraordinárias para lidar com a emergência a nível nacional. Após análise de uma amostra representativa, foi determinado que 68,66% do conteúdo transmitido não fornecia informações úteis para a população, apesar dos esforços oficiais para evitar o estresse e as ações especulativas.

A amostra, recolhida através da ferramenta Brandwatch, cobriu o período a partir das 6h de quarta-feira, dia 11, e 17h de quinta-feira, 12 de março, com base num critério de pesquisa com palavras-chave referentes ao coronavírus, Covid-19 e à declaração de uma pandemia da OMS.

A revisão do conteúdo permitiu dividir as mensagens coletadas em três categorias: informação relevante sobre recomendações para evitar a propagação do coronavírus e medidas preventivas adotadas pelos governos (31%); tuítes com dados do impacto ou comentários dramáticos sobre a propagação e consequências do coronavírus (31,85%); e mensagens irrelevantes como piadas, notícias falsas ou abstrações (36,81%).

Segundo a análise do OjoPúblico – como parte do projeto Sala de Democracia Digital (SDD) – a declaração da pandemia produziu no Peru até 995 tuítes a cada 5 minutos por volta das 11h50 da manhã no dia 11 de março. Ou seja, 199 tuítes por minuto, que foi o pico mais alto do debate sobre coronavírus no primeiro dia da declaração da pandemia, de acordo com os dados da plataforma Trendsmap.

Minutos antes, já se havia registrado um pico nas interações, após a mensagem televisionada do presidente Martín Vizcarra para anunciar as primeiras medidas extraordinárias para conter o avanço do coronavírus. Estes anúncios – que incluíram a suspensão das aulas nas escolas e o isolamento dos viajantes vindos da Europa e da China – resultaram em 877 interações a cada 5 minutos, ou 175 publicações por minuto no momento crítico.

A análise com a ferramenta Brandwatch mostra que 12 de março foi o dia em que a maioria dos conteúdos referentes ao Covid-19 foi gerada durante o presente mês. Os dados fornecidos pelo Trendsmap são semelhantes. Na última quinta-feira, foi gerado um pico de interações às 13h45, com 2.515 interações a cada 15 minutos. Isso coincidiu com a coletiva de imprensa dada pelo presidente Vizcarra, na qual ele confirmou que 22 pessoas haviam sido infectadas pelo vírus até aquele momento e anunciou novas medidas adotadas pelo governo para conter o surto do coronavírus. Um dia depois, o número oficial indica que há mais 16 afetados.

As principais hashtags usadas no debate foram #Coronavirus, #Covid19, #coronavirusperu, #covid_19, #coronavid19 e #pandemia, enquanto as palavras mais citadas foram ‘coronavirus’, ‘pandemia’, ‘peru’, ‘covid’, ‘medidas’, ‘casos’ e ‘classes’ de acordo com o relatório do Trendsmap.

Mapa de palavras

REJEIÇÃO. Uma das hashtags geradas no Twitter em torno do Covid-19 foi #BastaDeHisteriaCollectiva (Chega de histeria coletiva). A hashtag refletiu as críticas que prevaleciam nas redes em relação ao aumento das compras nos supermercados.
Fonte: Brandwatch.

Críticas ao governo

O OjoPúblico também analisou as reações e o que foi dito no Twitter sobre o desempenho do Governo para enfrentar esta crise e especialmente sobre o Presidente Martín Vizcarra. Quase 50% dos comentários sobre o assunto foram críticas ao presidente da República, do Ministério da Saúde ou EsSalud (Seguro Social de Saúde do Peru), de acordo com a análise qualitativa de mais de 38.693 interações registradas desde 6 de março, dia em que foi anunciada a chegada do coronavírus no Peru, até a última quinta-feira, 12 de março.

As críticas se centraram no fato de que o presidente da República liderou a coletiva de imprensa para anunciar a existência do primeiro paciente com Covid-19 no país, mas que ele não se pronunciou sobre medidas para erradicar a violência contra as mulheres, a epidemia de dengue e outros problemas.

Dentro deste setor, também foram detectadas críticas ao atraso do Poder Executivo em tomar e anunciar medidas de prevenção, já que estas foram assumidas 5 dias após a confirmação do primeiro caso no Peru.

Cerca de 35% das mensagens eram neutras ou informativas sobre as medidas tomadas pelo governo e apenas 8% das interações correspondiam a usuários que eram a favor do desempenho do presidente Martín Vizcarra.

Martín Vizcarra, presidente de la República y Elizabeth Hinostroza, ministra de Salud.

CRÍTICAS. Quase 50% das menções ao Presidente Vizcarra foram críticas às suas ações para controlar a propagação do coronavírus. Os questionamentos giravam em torno do anúncio da chegada do Covid-19 ao Peru.
Fonte: Andina.

Compras em massa

Desde o dia em que foi relatado o primeiro caso do coronavírus até a última quinta-feira, as notícias de compras em massa e a escassez em shopping centers somaram 18.871 interações no Twitter, e tiveram uma explosão nas discussões na quinta-feira, 12 de março, com mais de 13 mil tuítes e retuítes.

Segundo a análise qualitativa da Sala de Democracia Digital, baseada em uma amostra com 95% de confiabilidade, 52% do debate no Twitter sobre esse fenômeno foi de rejeição a essa prática. Isto também foi evidenciado pela hashtag #BastaDeHisteriaCollectiva, que foi a principal tendência sobre o assunto, de acordo com uma consulta à plataforma Brandwatch.

As publicações que seguiram nesse sentido incluíram pedidos aos principais supermercados do país para restringir a venda de produtos por cliente. A reação das redes levou a empresa Cencosud, responsável pelos supermercados Wong e Metro, a estabelecer restrições para a compra de desinfetantes, antibacterianos e papel higiênico. Já a Supermercados Peruanos S.A., operadora do supermercado Plaza Vea, também se pronunciou através das suas redes sociais, mas apenas para pedir que seus clientes comprem de forma responsável.

No Twitter, 10,2% do conteúdo deste debate foram relatos de prateleiras vazias em shopping centers, acompanhados de fotos e vídeos, enquanto 14,4% foi conteúdo satírico sobre o alarme gerado nos usuários.

Os incidentes de compras descontroladas levaram o presidente Martín Vizcarra e a Ministra da Saúde Elizabeth Hinostroza a pedir calma e que os cidadãos fossem informados sobre as implicações da declaração de uma emergência sanitária.

“Os armazéns dos shopping centers e das empresas de produção estão abastecidos. Todo o aparelho produtivo está em perfeito estado e continua produzindo. Não haverá problema de escassez, porque esta emergência não danificou a infraestrutura produtiva em comparação com outras. Então, calma e serenidade[…]”, foram as palavras de Martín Vizcarra.

*A Sala de Democracia Digital é uma ação da FGV DAPP, em parceria com Chequeado, na Argentina, Linterna Verde, na Colômbia e Ojo Público, no Peru. Nós monitoramos o debate público nas redes sociais pela América Latina.  

A análise original está disponível no site do Ojo Público aqui.

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