03 set

‘Por que tanta raiva das mulheres?’: 1º debate fomenta discussão de gênero no Twitter

por Sul 21

Por Duda Romagna

Atualizado em 26 de setembro, 2022 às 10:17 am

No domingo (28), aconteceu o primeiro debate de 2022 entre os candidatos e candidatas à presidência, transmitido simultaneamente pela TV Bandeirantes e pela TV Cultura e em canais online da Folha de S. Paulo e UOL. Além do esperado bate-boca entre os presidenciáveis, o momento foi marcado pela agressão verbal direta de Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, contra a jornalista Vera Magalhães. Outras situações menos explícitas, mas representativas da desigualdade de gênero também permearam o debate, como quando ao poder escolher a quem perguntar entre Ciro Gomes (PDT), Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil), Bolsonaro optou pelo único homem para falar sobre política para as mulheres.

Desde às 21h, quando teve início a transmissão, se observou grande movimentação nas redes sociais, em especial no Twitter. Segundo dados obtidos pela reportagem através da plataforma de monitoramento de redes sociais Trendsmap, até às 21h do dia seguinte, foram publicados 218.300 tweets mencionando Bolsonaro e as palavras “mulher” ou “mulheres”. Às 22h50min, no exato momento em que Bolsonaro respondia a candidata Simone Tebet (MDB), foi registrado um pico de 2.200 postagens por minuto.

Tebet acusou o presidente de defender assassinos e estupradores perguntando “por que tanta raiva das mulheres?”. “Qual estuprador? Me acusa sem provas. Por que faz uma denúncia barata como se eu não gostasse de mulheres? Não cola mais. Chega de vitimismo. Sancionei mais de 60 leis favoráveis às mulheres. A maioria das mulheres me ama”, respondeu Bolsonaro.

A declaração do presidente, no entanto, não encontra respaldo nas pesquisas de intenção de voto. O último levantamento do Datafolha, de sexta-feira (2), indica que ele tem 29% entre essa fatia do eleitorado, enquanto Lula alcança 48%.

A pesquisadora do Laboratório de Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Raquel Recuero, entende que redes sociais são parte já integrante da rotina dos telespectadores e que muitas vezes pautam discursos fora delas. “O fato das pessoas usarem as redes sociais como segunda tela é importante, elas estão vendo o debate e ao mesmo tempo estão comentando nessas plataformas, assim acabam mostrando de alguma maneira o que está sendo importante, o que as pessoas estão debatendo efetivamente. Nesse caso não foi uma coisa só das pessoas que estavam assistindo, mas os próprios candidatos também levantaram essa questão”, pontua.

 

Discussão sobre a postura de Bolsonaro quanto às mulheres apresentou pico durante o debate.

Entre as 21h do domingo (28) e as 20h59min da segunda (29), foram publicados 218.300 tweets combinando as palavras “mulher”, ou “mulheres”, e “Bolsonaro”, e de acordo com os cadastros dos usuários, 57% dos tweets foram feitos por homens e 43% por mulheres. Retweets, quando usuários compartilham uma publicação de outra pessoa, representam 84% do total de postagens. De acordo com a estimativa da plataforma, dois dias antes do debate, no dia 26, foram publicados somente 5.900 tweets citando a combinação de palavras. Dois dias depois, no dia 30, foram 36.100 postagens, um aumento de mais de 500%.

As hashtags mais utilizadas foram: #soumulherevotobolsonaro, #mulherescombolsonaro, #senadoradobolsonaro, #bolsonaronoprimeiroturno, #forabolsonaro, #lulaeoptjano1ºturno, #lulano1ºturno, #bolsonarovenceuodebate e #lulapresidente13.

Para Sabrina Almeida, pesquisadora da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getúlio Vargas (FGV ECMI), o Twitter é uma rede que reflete os tópicos que ganham visibilidade no debate público. “Nesse período de proximidade do pleito, o Twitter e as demais redes sociais digitais são fontes que dão indícios de como o público intervém e percebe questões de interesse público, político e social”, explica.

Vera Magalhães endereçou uma pergunta para o candidato Ciro Gomes (PDT) sobre a queda nos números da cobertura vacinal do Brasil e a desinformação sobre vacinas, difundida pelo próprio presidente. Comentando a questão, Bolsonaro fugiu do tema e atacou a jornalista da TV Cultura. “Acho que você dorme pensando em mim. Você tem alguma paixão em mim. Não pode tomar partido num debate como esse. Fazer acusações mentirosas a meu respeito. Você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro”, disse.

À Tebet, disse que ela era “uma vergonha no Senado Federal”. “E não, não tô atacando mulheres não, não venha com essa historinha de se vitimizar”, finalizou.

A agressão de Bolsonaro contra Vera Magalhães foi criticada primeiramente pelas candidatas mulheres. Soraya Thronicke (União Brasil), desconhecida por boa parte do eleitorado, ganhou destaque ao afirmar: “Quando eu vejo o que aconteceu com a Vera, eu realmente fico extremamente chateada. Quando homens são tchutchuca com outros homens, mas vêm pra cima da gente [mulheres] sendo tigrão, eu fico extremamente incomodada”, afirmou.

Bolsonaro e Ciro ainda protagonizaram um momento de ataques trocados que representa o tipo de abordagem às questões de gênero frequente na política nacional. Quando o atual presidente escolheu Ciro Gomes para falar e questionou o que ele faria “para ampliar” as políticas de seu governo para as mulheres, o pedetista observou que Bolsonaro “não respeita e não dá valor às mulheres” e lembrou a fala do mandatário sobre a única filha ter sido resultado de “uma fraquejada” depois de quatro filhos homens. Na sua vez de responder, em lugar de se desculpar ou oferecer propostas, Bolsonaro relembrou que, em 2002, Ciro Gomes disse que a missão mais importante da então esposa, a atriz Patrícia Pillar, era “dormir” com ele.

Para Viviane Gonçalves, professora de Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Brasil vive um momento de convergência entre a influência da televisão e a ascendência da internet entre o eleitorado. A pesquisa sobre o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nos Domicílios brasileiros (TIC Domicílios) de 2021, divulgada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostrou que 81,5% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet.

“Por mais que o país ainda seja muito marcado e influenciado pelas informações trazidas pela TV, pensando no horário gratuito político eleitoral, a gente vê que as redes sociais, pela própria cultura comunicacional que a gente tem nesse momento, são muito importantes. É justamente mostrando a importância delas que não só os perfis verificados, de jornais e veículos de comunicação de modo geral, ganham visibilidade nesses debates e que têm um maior engajamento, pelo contrário são pessoas comuns e anônimas, como apoiadores de candidatos, que de modo geral conseguem ter essa discussão e ganhar uma repercussão ali naquele ambiente digital.”

Viviane explica ainda que, apesar da internet parecer um espaço mais democrático, a presença de mais opiniões masculinas é reflexo da sociedade. “O que nos pauta estruturalmente? Há uma construção social que coloca as mulheres muito mais como quem precisa pensar muito no que vai fazer, para não ser ridicularizada, não ser taxada de louca, os homens são colocados muito mais como propensos e educados, inclusive formados, para expressarem opiniões. É como se a eles fosse dada uma chancela para se posicionarem. As mulheres precisam se sentir confortáveis para se expressar e não é porque estamos num mundo não físico que isso se torna mais fácil.”

 

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