03 abr

O debate sobre o coronavírus se polarizou entre os que têm mais e os que têm menos

Por Ariel Riera e Celeste Gómez Wagner

Atualizado em 14 de abril, 2020 às 10:03 am

Se você tiver apenas alguns segundos, leia estas linhas:

  • O coronavírus chegou à Argentina através de pessoas que haviam viajado para um dos países onde o contágio já havia começado, especialmente a Europa.
  • O decreto de isolamento social, preventivo e obrigatório, estabelece que as pessoas devem ficar em suas casas, mas as realidades habitacionais não são as mesmas para todos.
  • As repercussões sociais e econômicas se acentuam quanto mais desigual é um país.

A doença COVID-19 começou em Wuhan, China, no final de 2019, e de lá se espalhou para outras partes do mundo. Primeiro pela região, com casos no Japão, Taiwan e Coreia do Sul, e depois para os Estados Unidos e países europeus, como Espanha, França e Itália. Em 2 de fevereiro, foi relatada a primeira morte fora da China de um homem de 44 anos de idade que morava nas Filipinas.

Na Argentina, a propagação do vírus começou com aqueles que haviam viajado para um dos países onde a doença já havia sido detectada. Portanto, no início as partes oficiais enfatizaram que se tratava de “casos importados”. Na verdade, o primeiro deles, confirmado em 3 de março, foi detectado em um homem de 43 anos que havia chegado a Buenos Aires vindo de Milão, na Itália. Ele foi colocado em isolamento na clínica Suizo Argentina e depois transferido para o Sanatorio Agote (também da Swiss Medical).

As distâncias e os custos significam que apenas uma pequena parte da população argentina tem os recursos necessários para viajar ao exterior. Segundo o Ministério do Turismo e Esporte, 1,2 milhões de argentinos viajaram ao exterior em janeiro de 2020, o que representa 2,6% da população. Nesse sentido, o coronavírus começou a ser associado às classes mais altas, contrastando com os casos de dengue nas regiões pobres do país.

Este tipo de leitura de classe também ocorreu com o novo coronavírus em outros países da região, como o Brasil, onde uma das primeiras mortes foi de uma empregada doméstica cujo empregador tinha viajado para o exterior e foi afetado pela doença.

O debate sobre isso também se voltou para as redes sociais. Por exemplo, Marcelo Sain, Ministro da Segurança da Província de Santa Fé, usou sua conta no Twitter para dizer: “Nós não só buscamos e trazemos esses ricos nos aviões, mas usamos os kits de teste neles”. (…) Temos poucos kits e os dedicamos à classe alta”. Nas respostas, alguns usuários criticaram o fato de muitos desses viajantes serem “Kirchneristas” (veja aqui e aqui), acrescentando polarização política à discussão de classe.

Utilizando a ferramenta de monitoramento Trendsmap, que permite medir as interações no Twitter sobre determinados tópicos, foi detectado que, dos 2.411.300 tuítes com palavras relacionadas à pandemia compartilhados na Argentina de 3 de março (quando o primeiro caso foi conhecido) até hoje, 30% incluíam as palavras “pobre” ou “pobres” (30%) e 17%, “ricos” ou “rico” (17%).

Várias das interações mostram uma polarização entre as classes sociais com respeito ao coronavírus. Por exemplo, as duas mensagens mais respondidas mostram os dois polos do debate: um deles criticou “um rico que foi de férias à Europa em primeira classe no meio de uma pandemia, [e] voltou bichado”. O outro, por outro lado, disse: “Os ‘ricos’ que você insulta são os que pagam os impostos que mantêm seus planos sociais” (sic).

As divisões sobre a pandemia são acentuadas pelo efeito desigual das medidas durante a quarentena. Segundo dados do segundo semestre de 2019 divulgados esta semana pelo INDEC, a pobreza subiu para 35,5% e afeta cerca de 16,4 milhões de pessoas. Portanto, o isolamento social não é o mesmo para todos. “Não é a mesma coisa a quarentena para a classe média, que fica em casa, que o isolamento social nos setores pobres”, reconheceu Daniel Arroyo, ministro do Desenvolvimento Social da Espanha, em entrevista ao La Vanguardia.

De acordo com o último relatório sobre “indicadores de condições de vida” do INDEC, 4,7% das pessoas vivem em condições críticas de superlotação (mais de 3 pessoas por quarto) e, segundo dados do Cadastro Nacional de Bairros Populares do Governo Nacional (2018), mais de 4 milhões de pessoas vivem nos mais de 4 mil bairros populares localizados em todo o país.

Não se trata apenas de uma questão de moradia. A Coordenadoria contra a Repressão Policial Institucional (Correpi) enfatizou que “as forças de segurança não agem da mesma forma nos bairros e vilarejos populares, nem tratam as pessoas e os trabalhadores da mesma forma que os habitantes de áreas privilegiadas” (sic). O Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (CELS) alertou que a declaração de estado de emergência poderia ser interpretada pelas forças de segurança “como uma carta branca para praticar abusos” e apontou casos de humilhação e uso irracional de balas de borracha.

Além dessas desigualdades, há também as condições de trabalho. No país, de acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), no terceiro trimestre de 2019, do total da população ativa, os “não assalariados” (ou seja, aqueles que não têm um emprego em relação de dependência) representavam 11,7%.

O cenário não é exclusivo do país. Segundo a ONU, como 55% da população mundial não tem acesso à proteção social, as consequências do coronavírus terão impacto não só na saúde, mas também na educação, nos direitos humanos e até mesmo na segurança alimentar. “Quanto mais desigual for um país, mais os grupos mais vulneráveis suportarão o peso das repercussões econômicas da pandemia e terão menos recursos para combatê-la”, advertiu Alicia Barcena, bióloga e secretária executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

*A Sala de Democracia Digital é uma ação da FGV DAPP, em parceria com Chequeado, na Argentina, Linterna Verde, na Colômbia e Ojo Público, no Peru. Nós monitoramos o debate público nas redes sociais pela América Latina.

A análise original está disponível no site do Chequeado aqui.