20 mar

Dominado por base governista, mais de meio milhão de perfis se manifesta nas redes sobre bloqueio do Telegram no Brasil

Atualizado em 7 de abril, 2022 às 7:46 pm

  • Insatisfeitos com a decisão de Alexandre de Moraes, mais de 67% dos usuários alegaram tentativa de prejudicar Jair Bolsonaro e listaram inconvenientes no cotidiano das pessoas;
  • Perfis críticos ao governo comparam a indignação de bolsonaristas diante do bloqueio do aplicativo com a passividade com que aceitam a alta do preço dos combustíveis;
  • No Facebook, sites governistas são os responsáveis pelos links com maior número de interações.

Decisões do Supremo Tribunal Federal sobre a operação do Telegram no Brasil agitaram as redes sociais no final de semana. De sexta (18) e domingo (21), foram contabilizadas 589,6 mil menções ao tema no Twitter, segundo levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV DAPP). O debate teve forte repercussão na tarde de sexta, quando foi anunciado o bloqueio do aplicativo no país por decisão do ministro Alexandre de Moraes, alcançando 36,4 mil tuítes às 16h.

Evolução do debate sobre o Telegram no Twitter
Período: de 18 a 20 de março

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

Maior parte dos perfis ficou descontente com a decisão de Moraes, classificando a ação como autoritária e ditatorial. Das top 5 hashtags do debate, quatro miravam a Corte ou o ministro: #impeachmentalexandredemoraes e #impeachmentalexandremoraes, que somaram 12,9 mil postagens; #stfvergonhanacional, que apareceu em 33,5 mil tuítes; e #moreastirano, em 4,9 mil postagens. Também teve destaque o indexador #telegram, usado em 4,7 mil tuítes. Além disso, como link mais compartilhado no Twitter durante o período analisado, o endereço do canal pessoal de Jair Bolsonaro na ferramenta compõe aproximadamente 2 mil postagens.

Mapa de interações do debate sobre o Telegram no Twitter
Período: de 18 a 20 de março

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

Azul ‒ 43,33% dos perfis | 69,64% das interações
Orbitando políticos, blogueiros e celebridades da base de apoio do governo federal, além de canais de mídia alternativa, o grupo com maior atuação no Twitter classifica a decisão de Alexandre de Moraes como sendo um ato de censura, comparando o episódio com situações que assolam países como Cuba, China e Coreia do Norte. Alegando que o Telegram seria o único canal em que gozariam de liberdade de expressão, perfis sugerem que o bloqueio da ferramenta configuraria uma ameaça à democracia.

Laranja ‒ 17,64% dos perfis | 11,12% das interações
Grupo que conta com políticos de esquerda, celebridades e jornalistas críticos à gestão atual se concentra em divulgar a notícia do bloqueio do Telegram, alegando razoabilidade na decisão, visto que a plataforma teria descumprido decisões judiciais. Perfis insinuam que a ferramenta seria usada para se cometerem crimes e disseminarem notícias falsas. Outras postagens também ironizam a frustração da ala governista diante do episódio.

Rosa ‒ 10,55% dos perfis | 5,10% das interações
Composto por alguns influenciadores digitais e perfis de usuários comuns, grupo lamenta os inconvenientes do bloqueio do telegram com relação ao acesso sobretudo a livros, filmes e séries, com algumas postagens, inclusive, orientando como contornar o problema. O termo “bookstan” ‒ que significa algo como leitor fiel de alguma saga ou autor ‒ teve destaque nessa parte do debate, contabilizando 9,8 mil postagens.

Verde ‒ 9,73% dos perfis | 7,00% das interações
Mobilizado por influenciadores digitais conservadores e empresários, grupo critica a decisão de Alexandre de Moraes, interpretando o bloqueio do Telegram como forma de prejudicar o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores no ano eleitoral. Sugerindo que o ministro seria tirano, postagens inserem o Brasil na lista de países ‒ supostamente pouco democráticos ‒ que já baniram a ferramenta, tais como Azerbaijão, Paquistão e Rússia.

Azul claro‒ 3,75% dos perfis | 2,26% das interações
Ancorado em postagens virais do perfil do deputado federal @marcelvanhattem (NOVO-RS), grupo destaca o caráter ditatorial ou censório do bloqueio do Telegram pelo Supremo. Há quem divulgue, também, vídeos com denúncias contra a decisão e o pedido de desculpas do CEO da empresa responsável pela ferramenta à Corte.

Links com mais interações sobre o bloqueio do Telegram no Facebook
Período: de 18 a 20 de março

Fonte: Facebook | Elaboração: FGV DAPP

Entre os links com mais interações publicados em páginas e grupos públicos e perfis verificados no Facebook, há grande predomínio de sites alinhados ao governo federal. O site Jornal da Cidade Online publicou sete dos dez links com maior engajamento e se destaca como principal veículo a orientar as narrativas do campo ligado ao governo. É interessante notar que o link com mais interações reproduz críticas feitas pelo jornalista Jorge Pontual, da GloboNews, canal usualmente associado como opositor ao governo.