25 out

Desde “o México está pior do que a Espanha” até “PRI, não se venda”, assim está a discussão digital sobre a reforma energética

por Animal Político | México

Por por Lidia Sánchez

Atualizado em 17 de novembro, 2021 às 1:14 pm

Em apenas duas semanas, foram registrados mais de 600 mil tuítes discutindo a reforma energética que o governo do México deseja realizar

 

A reforma energética pretendida pelo governo de Andrés Manuel López Obrador gerou um debate digital que, em duas semanas, somou mais de 600 mil tuítes, com mensagens a favor e contra a iniciativa, que, segundo o principal argumento do governo, fortalece a Comissão Federal de Eletricidade (CFE) e limita a participação privada no setor energético mexicano.

A discussão digital tem focado em temas como o pagamento de eletricidade por empresas privadas, os prós e os contras das energias renováveis, o apoio da oposição para a aprovação da reforma e a experiência da Espanha com as tarifas de eletricidade, conforme revelado pelas ferramentas TrendsMap e Gephy nos tuítes relacionados à reforma energética e seu alcance.

Dos mais de 637.700 mil tuítes registrados na conversa sobre o tema, foram identificadas 119 mil mensagens apoiando a reforma, a maioria delas usando somente duas hashtags: #LaReformaEléctricaVa e #ReformaEléctricaVa (a reforma energética vai). Por outro lado, 212 mil mensagens usaram 14 hashtags distintos para desqualificar a iniciativa.

Entre os protagonistas da conversa estão contas certificadas pela plataforma, mas também contas falsas; algumas com mensagens que se posicionaram entre as mas retuitadas, e outras que funcionam para amplificar mensagens.

Entre aqueles que se opõe à reforma e se sobressaíram na conversa no Twitter, estão a senadora panista Xóchitl Gálvez; María Elena Pérez-Jaén Zermeño, ex-comissária do Instituto de Acesso à Informação do (então) Distrito Federal; e Paola Migoya, ex-candidata do PAN a prefeita de Puebla. Também houve contas recentemente criadas que utilizaram informações falsas para se identificar.

Dentre as contas que são a favor da reforma, destacaram-se no debate a da chefe da Secretaria de Energia, Rocío Nahle, e as da Comissão Federal de Eletricidade (CFE) e seu diretor geral Manuel Bartlett, assim como o assessor político Abraham Mendieta e @Navigations, de Pedro Miguel Arce Montoya, colaborador do jornal La Jornada e um dos autores do “Guia Ético para a Transformação do México”.

Os veículos @SinLinea_Mx e @elgatopolitico_ também publicaram informações a favor do governo de López Obrador. Além disso, houve uma conta que disse pertencer a alguém chamado Juan Castillo, apesar de seu identificador ser @UnidosPorLa4T.

Também teve destaque uma conta chamada @patyper, que diz se chamar Paty Perhaps, embora sua imagem de perfil pertença a uma influenciadora da Turquia chamada Merve Demirci. A fotografia original pode ser vista em sua conta no Instagram.

Hashtags a favor e contra

Para realizar a análise do debate nas redes sociais, o El Sabueso empregou as ferramentas TrendsMap e Gephi, a fim de identificar quais mensagens se posicionaram na conversa no Twitter em relação à reforma energética de López Obrador entre 30 de setembro e 14 de outubro.

Primeiramente, foi realizada uma busca com os termos genéricos “a CFE”, “luz” e “eletricidade”, com os hashtags identificados anteriormente: #ReformaEléctrica e #ReformaEnergética, com suas variantes em letras minúsculas e sem acentuação.

Como resultado, identificamos as principais palavras e os hashtags mais utilizados no debate, que gerou um total de 637.700 tuítes e 533.300 retuítes.

Nuvem de palavras utilizadas no Twitter sobre a reforma energética

Nuvem de hashtags utilizadas no Twitter sobre a reforma energética

A partir deste primeiro resultado, dividimos as hashtags entre expressões genéricas, as que estavam a favor e as que estavam contra, como pode ser visto na tabela a seguir.

Hashtags utilizadas no Twitter sobre a reforma energética

Linha do tempo de hashtags usados em relação com a reforma energética

 

Posteriormente, realizamos uma nova busca com cada um dos grupos de hashtags identificados, e o resultado foi analisado através da ferramenta Gephi para distinguir quais contas e mensagens protagonizaram o debate em cada uma das comunidades – as contas relacionadas entre si –, identificadas por cores distintas.

Um exemplo é o gráfico a seguir, onde é possível observar duas comunidades que foram criadas a partir do uso de hashtags genéricas. As contas que usaram as hashtags em mensagens de apoio à reforma energética estão em cor de rosa, e as contas que o fizeram para mostrar oposição estão em azul.

Contas mais retuitadas que usaram hashtags genéricas sobre a reforma energética

Espanha, privados, Oxxo

Como pode ser observado no gráfico anterior, dentre as contas que usaram hashtags genéricas para mostrar seu apoio à reforma energética está a da secretária de Energia, Rocío Nahle.

No dia primeiro de outubro, ela publicou a mensagem mais retuitada na análise, na qual menciona que o CFE poderá gerar, no mínimo, 54% da eletricidade do país, e também fez uma referência ao lítio, garantindo que a sua exploração será para “uso exclusivo do Estado”, mensagem ecoada na conferência matinal onde o próprio presidente garantiu que o que quer “é que seja estabelecido na Constituição que o lítio é propriedade da Nação”.

O lítio, chamado de “petróleo do futuro” ou “ouro branco”, é um metal empregado para armazenar energia que pode ser usado, por exemplo, em baterias de celulares para torná-las mais duráveis.

Outra das mensagens mais retuitadas de Nahle foi publicada no dia 8 de outubro para assegurar que a reforma energética não planeja eliminar “os painéis solares em residências, edifícios, poços d’água, núcleos rurais, etc.”

A mensagem mais retuitada de Manuel Bartlett, diretor da CFE, foi um vídeo no qual ele afirmar que “o objetivo do setor privado é ganhar dinheiro, e o objetivo do Estado é garantir eletricidade barata”, uma ideia que o governo tem repetido, embora analistas e organizações tenham apontado que a reforma acabaria, na verdade, aumentando os custos ou subsídios da energia.

Em 8 de outubro, a conta da CFE publicou uma das mensagens de maior impacto dentro do debate sobre a reforma energética, que se relaciona com a crise energética na Espanha.

Del México estará ‘peor que España’ hasta PRI ‘no te vendas’, así la discusión digital sobre la reforma eléctrica

Tuíte 1:
Hoje, na Espanha, o Estado quer tomar o controle do setor energético, mas a legislação não permite e não pode impedir os aumentos. Sem a #ReformaEléctrica, no México vamos por esse caminho, priorizando o lucro sem interesse pela população. – Mario Moraloes Vielmas, CFE

Assim como a Comissão Federal de Eletricidade, a conta de @NortenaCatrina publicou um vídeo para indicar o que “pensam da Iberdrola” na Espanha.

Como contamos neste vídeo, a Iberdrola é uma empresa espanhola que, junto com outras quatro, Endesa, Naturgy, EDP e Vesgo-Repsol, concentram 90% da energia fornecida no setor doméstico.

No México, a Iberdrola é a segunda companhia, depois da CFE, em geração de energia elétrica. Porém, os esquemas energéticos da Espanha e do México são diferentes; na Espanha, por exemplo, não há um organismo público como a CFE, que distribui eletricidade, mas também compete como gerador.

No entanto, mensagens semelhantes foram publicadas pela conta @UnidosPorLa4T (1,2), enquanto as contas @chioreya (1), @patyper (1) e @elgatopolitico_ (1) postaram memes com a comparação.

A conta de Abraham Mendieta, assessor político, também figurou como uma das mais retuitadas no debate. Suas mensagens focaram em desqualificar Margarita Zavala, atual deputada panista, ex-candidata presidencial e esposa do ex-presidente Felipe Calderón.

No seguinte gráfico, pode-se observar que há uma comunidade predominante sobre o resto, em cor de rosa. O tamanho do nome de cada conta no Twitter representa a quantidade de retuites recebidos por algumas de suas mensagens, enquanto as linhas indicam de quais outras contas vieram essas interações.

As mensagens dessas contas foram as que mais usaram as hashtags: #lareformaelectricava, #reformaelectricava, #lareformaeléctricava y #reformaeléctricava (a reforma energética vai).

Contas mais retuitadas que usaram hashtags a favor da reforma energética

As contas presentes na imagem anterior, apesar de repetir a comparação entre a situação energética no México e na Espanha, também usam sistematicamente as palavras “empresas estrangeiras”, “privadas” e “inversionistas privados” para apoiar a ideia presidencial de “fortalecer a CFE”.

A iniciativa de López Obrador também propõe que a CFE tenha 54% do mercado, e 46% seja para as empresas particulares; assim como a extinção da Comissão Nacional de Hidrocarbonetos (CNH) e da Comissão Reguladora de Energia (CRE).

A conta @Navegaciones, de Pedro Miguel Arce Montoya, publicou várias mensagens que abordam esses temas (1, 2, 3).

A publicação mais retuitada de @SinLinea_Mx foi um meme que recria o gráfico mostrado pelo governo mexicano durante a conferência na manhã do dia 13 de outubro, onde se afirma que empresas como Oxxo, Walmart e Bimbo pagam até três vezes menos pela eletricidade do que “uma casa mexicana”. No entanto, como explicado nesta análise, estas informações são enganosas.

A votação do PRI e o T-MEC

Ao realizar uma busca das contas e mensagens que protagonizaram o debate contra a reforma através do uso das 14 hashtags já mencionadas, constatou-se que predominaram as que desqualificam o PRI e o voto que ele venha a ter sobre a reforma energética de López Obrador.

Contas mais retuitadas que usaram hashtags contra a reforma energética

Uma dessas mensagens foi de Paola Migoya, ex-candidata panista à prefeitura de Puebla, publicada em 4 de outubro e afirmando que a PRI votará rapidamente a favor da iniciativa.

Del México estará ‘peor que España’ hasta PRI ‘no te vendas’, así la discusión digital sobre la reforma eléctrica

Tuíte 2:
Amigos me contam que vários deputados da @PRI_Nacional estão pressionando-os a votarem rapidamente amanhã. O futuro do México está em jogo.
Marcação pessoal de todos os @Mx_Diputados e #PRInoTeVendas
Os interesses do México devem estar em primeiro lugar.

María Elena Pérez-Jaén Zermeño, ex-comissária do Instituto de Acesso à Informação do (então) Distrito Federal, também publicou um tuíte no qual apresenta “suspeitas” da relação que existe entre Morena e o PRI.

Fernando Belaunzarán, ex-deputado do Partido da Revolução Democrática (PRD) e ex-candidato do PAN a prefeito de Iztapalapa, publicou no dia 3 de outubro uma mensagem que também figurou como uma das mais retuitadas, na qual indica que, se o PRI votar a favor da reforma energética de López Obrador, ele estaria “traindo” aqueles que votaram nele.

Del México estará ‘peor que España’ hasta PRI ‘no te vendas’, así la discusión digital sobre la reforma eléctrica

Tuíte 3:
O mandato dos cidadãos que votaram na oposição é claro:
Pare com as loucuras do imperador.
Se o PRI votar a favor da #LeyApagon proposta por @lopezobrador_, estará traindo seus constituintes.
E daria uma facada no país e no seu desenvolvimento.
Estão avisados.

No dia 5 de outubro, López Obrador disse na conferência da manhã que, com a votação da reforma energética, o PRI tem “uma oportunidade de definir (se) vai continuar com o salinismo como política ou se vai retomar o caminho do presidente (Lazaro) Cardenas”.

Em resposta, Alejandro Moreno, presidente nacional do PRI, disse que ninguém está pressionando o partido, e que “tomará a melhor decisão e estará do lado da responsabilidade e da construção de um país melhor”.

Por outro lado, uma das contas que permanecem na conversa contra a reforma energética de López Obrador é a de Victor Ramirez, analista do setor de energia (@vicfc7). Em uma de suas mensagens, ele destaca que a reforma energética de López Obrador viola o acordo de livre comércio denominado T-MEC, que o país mantém com os Estados Unidos e Canadá.

Tuíte 4:
Se a #ReformaApagon for aprovada, o México estaria de fato rejeitando o TMEC, os outros acordos comerciais que possui e o Acordo de Paris.

Apesar de o próprio presidente insistir no contrário, a Associação de Empresários Mexicanos dos Estados Unidos e vários parlamentares do país, bem como a Câmara de Comércio do Canadá, se opuseram à reforma.

Outra conta que se destaca na análise é a de Xochitl Gálvez. Entre suas mensagens que se popularizaram nas conversas no Twitter estão três relacionadas a energias renováveis ​​e energias limpas.

Del México estará ‘peor que España’ hasta PRI ‘no te vendas’, así la discusión digital sobre la reforma eléctrica

Del México estará ‘peor que España’ hasta PRI ‘no te vendas’, así la discusión digital sobre la reforma eléctrica

 

Tuíte 5:
A #ReformaBerlett torna a @CFEmx responsável pela transição de energia.
Rocío Nahle anuncia que favorecerá o fornecimento dessa energia com óleo combustível e gás, em detrimento da energia limpa. Ou seja, mais poluição.
Eles se esquecem do compromisso do México contra #ClimateChange.

Tuíte 6:
Se aprovada, a #ReformaBarlett geraria um aumento da dívida pública. Corremos o risco de um curto-circuito elétrico.
Não vamos permitir que o México desligue o interruptor.

#ReformaCombustóleo
#ReformaApagón

 

*A Sala de Democracia Digital é uma ação da FGV DAPP, em parceria com Animal Político, no México, Bolivia Verifica, na Bolívia, Confidencial, na Nicarágua, Chequeado, na Argentina, Espacio Público, no Chile, Linterna Verde, na Colômbia, e Ojo Público, no Peru. Nós monitoramos o debate público nas redes sociais pela América Latina.

A análise original está disponível no site do Animal Político aqui.

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