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#DebateEnRedes: Em paralelo ao Senado, a “lei de emergência econômica” está sendo discutida no Twitter

Por Ariel Riera, Celeste Gómez Wagner e Mariela García

Atualizado em 23 de janeiro, 2020 às 10:59 am

Se você tiver apenas alguns segundos, leia estas linhas:

  • Foram registrados 938.500 tuítes compartilhados sobre os tópicos do projeto em todo o país: o aumento das retenções ao setor agroexportador foi o mais discutido na rede.
  • A conta do deputado da FIT-Unidad Nicolás del Caño foi a que mais mobilizou a conversa no Twitter.
  • Os usuários que interagiram se organizaram em quatro comunidades: uma em torno de Del Caño; outra identificada com a Juntos por el Cambio (Juntos pela Mudança); outra ligada ao governo; e uma localizada no meio, perto de contas como Infobae ou TN.

Na última quarta-feira, o Poder Executivo Nacional (PEN) enviou ao Congresso o projeto “Lei de Solidariedade Social e Reativação Produtiva”, que inclui um pacote de medidas econômicas como a suspensão da mobilidade na aposentadoria, um imposto de 30% sobre compras e gastos em dólares, e o aumento de retenções, entre outras.

Durante as sessões extraordinárias convocadas pelo presidente Alberto Fernández, o projeto de lei foi discutido em comissões e passado à Câmara dos Deputados na última quinta-feira, onde após 15 horas de debate, recebeu 134 votos a favor e 110 votos contra minutos antes das 6h30 de sexta-feira. Nesse mesmo dia, o projeto de lei foi para o Senado para votação e aprovação final.

O escopo do projeto de lei motivou a discussão nas redes sociais. O Chequeado analisou o que foi discutido no Twitter sobre este assunto desde quinta-feira, 12 de dezembro às 8h, quando foi publicada a convocação de sessões extraordinárias no Diário Oficial, até sexta-feira, 20 de dezembro, às 12h, quando o Senado debateu a lei. Foram registrados 938.500 tuítes compartilhados sobre estes tópicos, com um pico em 18 de dezembro às 10h, quando o debate no plenário começou.

Interações sobre a Lei de Solidariedade Social e Reativação Produtiva

Gráfico elaborado com base em dados obtidos via Trendsmap sobre as interações geradas no Twitter de quinta-feira 12 de dezembro de 2019 às 8h até sexta-feira 20 de dezembro de 2019 às 12h.

Das hashtags mais usadas nas mensagens, destacou-se “#18DTodosAlCongreso” (“18 de dezembro, todos ao congresso”), que foi usada em 18% dos tuítes. Foi promovida pela Juntos por el Cambio (Juntos pela Mudança, JxC) para mobilizar o Congresso contra a lei (ver aqui, por exemplo), e seguiram-se outras hashtags ligadas à convocatória, como “#18DCacerolazoNacional” (“18 de dezembro, panelaço nacional”, com 7,4%), uma ação planejada como parte da mobilização; “#NoALaEmergenciaEconomica” (“Não à emergência econômica”, com 6,2%) e “#NoALosSuperpoderes” (“Não aos superpoderes”, com 5,8%).

Entre as 10 hashtags mais bem classificadas, as utilizadas a favor da lei ficaram em 7º e 8º lugar. Foram “#ArreglandoLoQueRompioMacri” (“Consertando o que Macri quebrou”, com 3,6%) e “#LeySolidariaParaElPuebloYa” (“Lei Solidária para o povo já”, com 2,9%).

A mensagem mais compartilhada foi a do deputado Nicolás del Caño, ex-candidato à presidência pela FIT-Unidad. Ele criticou a lei especialmente pela modificação das aposentadorias: “os deputados que cobram 180 mil pesos votarão uma lei para ajustar todos os aposentados que mal ultrapassam 19 mil pesos”. Ele também foi irônico com o nome da lei e declarou: “São ‘solidários’ com o dinheiro daqueles que trabalharam toda a sua vida!!”. Obteve 23 mil retuítes e 88.900 curtidas.

De fato, a conta de Del Caño foi a que mais mobilizou a discussão sobre o tema, mesmo através de diferentes comunidades no Twitter. Por um lado, obteve respostas e citações (compartilhamentos com comentários) que utilizaram a hashtag “#19DTodosAlCongreso” impulsionada pela Juntos por el Cambio. Nessa linha, por exemplo, a cientista do Conicet próxima à Cambiemos (Mudemos) Sandra Pitta tuitou: “É tanto desespero que estamos retuitando [Gabriel] Solano e del Caño!”. Por outro lado, foi criticado por usuários ligados ao governo, pois em uma entrevista ao canal TN disse que eles não iriam fornecer quórum, embora mais tarde esclareceu no Twitter que iriam fornecer para a posse de novos deputados.

A análise da discussão permite observar quatro comunidades com peso sobre este tema. Além do foco em torno dos tuítes de Del Caño, há uma comunidade identificada como JxC onde os deputados Mario Negri (UCR) e Waldo Wolff (Cambiemos) se destacam próximo a contas como a de “Coya” ou “La Belgrana”, e uma comunidade separada com personalidades do oficialismo, como o deputado de Buenos Aires Leandro Santoro da Unidad Ciudadana (Unidade Cidadã) e Alberto Fernández, ou jornalistas e meios de comunicação próximos a eles, como Juan Amorín e El Destape.

No meio, ficaram usuários que interagiram com as contas do TN e Infobae, ou com figuras do liberalismo como os economistas Roberto Cachanosky, José Luis Espert, ou Javier Milei.

Por outro lado, o tuíte mais respondido foi publicado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Sergio Massa. Ele anunciou a sanção do projeto e recebeu mais de 400 comentários, muitos deles críticos. Massa também foi um dos três usuários mais ativos no Twitter no período analisado (de acordo com o número de respostas, retuítes e menções). No topo do ranking estavam os já mencionados Wolff e Negri.

A discussão, tal como a norma, incluiu vários tópicos, que podem ser analisados separadamente.

Número de tuítes por eixo temático da lei

Gráfico elaborado com base em dados obtidos através do Trendsmap sobre alguns dos pontos incluídos na Lei de Emergência Econômica (discutidos nesta nota). O período de análise inclui os tuítes compartilhados na Argentina de 12 de dezembro de 2019 às 8h até 20 de dezembro de 2019 às 12h.

RETENÇÕES

O aumento das retenções segmentadas para o setor agroexportador foi o tema do projeto que mais foi discutido no Twitter. Entre 12 de dezembro às 8h e 20 de dezembro às 12h, 360 mil mensagens foram publicadas na Argentina.

Quase 12% dos tuítes incluíam a hashtag #retenciones (“retenções”), seguida pela #18DCacerolazoNacional (“18 de dezembro, panelaço nacional”, com 2,7%), #18DTodosAlCongresso (“18 de dezembro, todos ao congresso”, com 1,8%), #solidaridad (“solidariedade”, com 1,7%), #VolvieronPeores (“voltaram piores”, com 1,5%) e #YoNoSoyElCampo (“eu não sou o campo”, com 1,5%).

A mensagem mais respondida foi de @fulanos3, que propôs “apresentar o aumento de retenções com frases que foram usadas pelos membros do Cambiemos cada vez que eles botaram na nossa bunda. Eu começo: ‘eles os fizeram acreditar que poderiam viver sem retenções’“. A frase parodia o que disse o economista Javier González Fraga em 2016 sobre a gestão kirchnerista: “Eles fizeram o funcionário médio acreditar que ele poderia comprar TVs de plasma e viajar para o exterior”.

O setor agrícola criticou a medida por afetar a produção e pela falta de diálogo. O Presidente usou sua conta no Twitter para destacar várias modificações no projeto de lei e assim “melhorar a lei”, em uma série de publicações que só em sua primeira mensagem passou as 18 mil “curtidas” e teve quase 4 mil retuítes. Sobre esta questão em particular, destacou a incorporação de “um artigo que prevê que o Poder Executivo deverá estabelecer mecanismos para compensar os efeitos dos direitos de exportação específicos para os pequenos produtores e cooperativas”.

No projeto de lei que foi para o Senado, foi estabelecida uma redução nas retenções sobre petróleo e mineração.

“SUPERPODERES”

O artigo 85 do projeto de lei, que foi finalmente revogado, permitiu ao Executivo “redesenhar a organização da Administração Pública”, que foi criticada por dar “superpoderes” ao Executivo e foi uma das razões para que o bloco de deputados da Juntos por el Cambio (Juntos pela Mudança) não comparecesse ao debate no Congresso. O tema motivou 156.500 tuítes entre 12 de dezembro às 8h e 20 de dezembro às 12h.

A hashtag #NoALosSuperpoderes (“Não aos superpoderes”) esteve presente em 38,3% das mensagens e, devido à conotação negativa da palavra, as quatro mensagens mais retuitadas correspondem a deputados da oposição que se manifestaram na rede social contra o artigo 85: Luis Petri, Negri, Wolff e Paula Oliveto.

Em torno deste tema, o oficialismo subiu para o terceiro e quarto lugar no ranking dos mais respondidos: atrás do governador de Jujuy, Gerardo Morales, e Negri, ficaram o deputado nacional da Frente de Todos Leopoldo Moreau e o legislador de Buenos Aires pelo mesmo partido, Leandro Santoro. Ambos coincidiram em criticar a Cambiemos (“Mudemos”) por ter declarado que não dariam quórum para abrir a sessão dos deputados.

DÓLAR

A sobretaxa de 30% sobre o dólar para acumulação ou despesas estrangeiras gerou 135.400 tuítes de 12 de dezembro às 8h até 20 de dezembro às 12h. A hashtag #DolarTurista (“Dólar turismo”) foi a mais utilizada (4,6%), e os cinco termos que mais se repetiram foram “dólar” (58%), “dólares” (31%), “turismo” (23%), “imposto” (17%) e “estrangeiro” (12%).

Diego Poggi, jornalista do canal de notícias Todo Noticias (TN), foi o autor da mensagem que recebeu mais respostas no período analisado pelo Chequeado. No dia 14 de dezembro, ele disse: “Você trabalha o ano inteiro, custa o olho da cara para conseguir uma passagem e sair de férias, e aí o imposto sobre turismo e compras no exterior volta. Sempre apertando aquele que trabalha todos os dias”. Neste caso, a maioria das respostas foi contra a sua opinião (ver aqui e aqui).

Um tuíte de Ofelia Fernández, legisladora de Buenos Aires pela Frente de Todos, foi o segundo mais respondido. No dia 15 de dezembro, ela disse: “A verdade é que com 1 em cada 2 crianças passando fome, sair para chorar pelo campo ou por aqueles que podem gastar dólares lá fora, me parece uma coisa perversa a fazer em meio a uma crise. Me criaram dizendo para me preparar para um mundo cada vez mais competitivo, prefiro um mundo cada vez mais solidário”. Como no caso de Poggi, foi mais criticada (ver aqui e aqui) do que apoiada pela sua avaliação (ver aqui).

Vale lembrar que outra das modificações feitas ao projeto teve a ver com o chamado “dólar turismo”. As operações, liquidações e pagamentos efetuados antes da data da entrada em vigor da lei foram excluídos do imposto.

APOSENTADORIAS

De 12 de dezembro às 8h até 20 de dezembro às 12h, 91.600 mensagens foram publicadas no Twitter no país sobre este tema. 40% dos tuítes foram acompanhados pela hashtag #18DPorLosJubilados (“18 de dezembro pelos aposentados”), seguido por #18DTodosAlCongreso (“18 de dezembro, todos ao congresso”, com 26,2%). Em terceiro lugar, ficou a hashtag #PierdenLosAbuelos (“Os avós perdem”, com 24,5%)

As palavras mais repetidas nas mensagens relacionadas com este tema foram “aposentadorias” (26%), “congresso” (24%), “aposentados” (22%), “inflação” (17%); “decreto” e “mobilidade” (14%).

Uma mensagem da ex-ministra da Segurança Nacional Patricia Bullrich foi a mais respondida no período em análise. Lá, ela apontou os poderes que o presidente teria, incluindo a atualização das aposentadorias, e acrescentou: “Mudaram a República para a Monarquia!”.

No projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados, foi aceita a exclusão de professores primários, professores secundários e universitários e cientistas dos planos de aposentadoria prevista no documento original. Além disso, aqueles que recebem aposentadorias especiais, como ex-presidentes e vice-presidentes, juízes do Supremo Tribunal e outros funcionários do judiciário, foram deixados de fora da suspensão.

*A Sala de Democracia Digital é uma ação da FGV DAPP, em parceria com Chequeado, na Argentina, Linterna Verde, na Colômbia e Ojo Público, no Peru. Nós monitoramos o debate público nas redes sociais pela América Latina.

A análise original está disponível no site do Chequeado aqui.

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