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Debate amplia alcance da terceira via e coloca o machismo no centro do debate eleitoral

Atualizado em 1 de setembro, 2022 às 12:22 pm

  • Alcance de outros presidenciáveis diversifica discussão sobre pleito eleitoral, mas polarização mantém Lula e Bolsonaro como os nomes mais mencionados durante e após o debate da Band;
  • Base da esquerda concentra quase o dobro de perfis da base bolsonarista, mas ainda está atrás em número de interações;
  • Apoiadores de Bolsonaro e de Ciro se mobilizam contra Lula, aproximando as bases de apoio do pedestista e do presidente;
  • Embate entre Bolsonaro e presidenciáveis mulheres, além de ataque à jornalista Vera Magalhães, marcou discussão e alavancou o tema do machismo nas redes.

O primeiro debate televisivo entre os principais presidenciáveis, veiculado na Band, no último domingo (28), destacou-se nas discussões sobre as eleições de 2022. É o que mostra o levantamento da Escola de Comunicação da FGV, que identificou 7,8 milhões de menções sobre o debate eleitoral entre os dias 28 e 29 de agosto. Nas menções aos presidenciáveis, destacam-se índices altíssimos para o período de tempo analisado: Bolsonaro, com cerca de 3,8 milhões de citações, Lula, com aproximadamente 2,7 milhões de menções, e Ciro, com pouco mais de 1 milhão de comentários. As senadoras Simone e Soraya aparecem atrás, com respectivamente 568 mil e 400 mil menções. O candidato do Novo, Felipe d’Avila, não passou das 50 mil menções.

A discussão sobre machismo se destacou nos comentários sobre Bolsonaro, Ciro, Simone e Soraya, sobretudo, pelo episódio envolvendo a jornalista Vera Magalhães. Nesta discussão, a imagem de Bolsonaro foi prejudicada principalmente em relação ao eleitorado feminino. Ciro, embora menos criticado, não passou ileso após não ter defendido a jornalista. Simone e Soraya, por sua vez, atraíram elogios por terem se posicionado contra o presidente. Lula passou longe deste debate, atraindo menções negativas sobre segurança/corrupção e positivas sobre economia. Já Felipe d’Ávila teve repercussão restrita a temas de economia, especialmente em relação à ênfase dada às propostas de privatizações, em mensagens de tom caricatural.

 

Mapa de interações de menções a presidenciáveis no Twitter
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

 

Esquerda ‒ 58,1% dos perfis | 40,5% das interações
Grupo formado por figuras políticas, jornalistas e influenciadores de esquerda, com ênfase no perfil oficial de Lula e de André Janones. Estabelecendo alguns pontos de contato com o cluster que representa a terceira via, destacam-se postagens que explicitam a rejeição de Bolsonaro, com ênfase em discussões sobre os índices de fome e de inflação nacional, a postura supostamente machista de Bolsonaro e as declarações, feitas pelo presidente, de que Lula é um ex-presidiário. De modo mais lateral, também foram mobilizadas críticas contra Simone Tebet e seu posicionamento considerado “anti-indígena”. Neste grupo, houve ainda declarações de apoio e solidariedade à jornalista Vera Magalhães

Direita ‒ 31,5% dos perfis | 52,3% das interações
Grupo que agrega políticos, jornalistas, influenciadores e apoiadores da direita mais conservadora. Perfil oficial de Jair Bolsonaro é o principal ator do grupo. Mensagens sobre ataques de “mentiras” e posicionamento contra “ladrões”, publicadas pela conta do presidente, em referência a Lula e ao PT, deram a tônica das mensagens mais compartilhadas. A narrativa de ser um “presidente independente” munido de uma equipe técnica qualificada, mas supostamente incompreendida, marcou o discurso do presidenciável pós-debate. Base bolsonarista apontou tentativas de “lacração” e “ataques infundados” contra o candidato, sugerindo que há uma investida articulada contra ele.

Terceira Via ‒ 6,5% dos perfis | 6,5% das interações
Grupo formado por políticos, figuras públicas e jornalistas mais próximos à chamada terceira via, com protagonismo de perfis aliados à candidatura de Ciro Gomes. Destacam-se publicações da atriz e ex-esposa de Ciro, Patrícia Pillar, defendendo e indicando apoio ao presidenciável, após Ciro sofrer ataques que alegam que ele teria agredido a atriz. Críticas ao PT e a Lula também são preponderantes, o que pode explicar os pontos de contato entre este grupo e o cluster aliado ao ex-presidente.

Principais tuítes por grupo político no Twitter
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

 

Evolução de menções aos presidenciáveis no Twitter
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

 

  • As menções aos presidenciáveis cresceram durante o debate, com ênfase nos comentários sobre Bolsonaro e Lula. Nestes, destacam-se críticas a ambos, com indicativos de que os presidenciáveis estariam dando declarações mentirosas. Já a discussão entre Ciro e Lula movimentou o debate sobre o pedetista, que foi elogiado por apoiadores de Bolsonaro.
  • Soraya Thronicke e Simone Tebet apresentaram um número de menções próximo. As menções às senadoras, no entanto, variam em conteúdo: enquanto Thronicke protagonizou uma série de memes, os comentários sobre Tebet giraram em torno do seu confronto com Bolsonaro. O candidato do Novo, por sua vez, foi alvo de menções bem-humoradas e críticas.
  • As menções aos presidenciáveis, com exceção de d’Avila, voltaram a crescer na manhã do dia 29. O ataque de Bolsonaro contra a jornalista Vera Magalhães se destacou e foi bastante disputado. Apoiadores de Bolsonaro entendem que a jornalista teria merecido o ataque, já a oposição afirma que o ato teria o afastado do eleitorado feminino. O fato de Ciro não ter defendido Vera Magalhães gerou críticas à postura do pedetista.
  • Ainda no pós-debate, a base governista se mobilizou para atacar Tebet. Junto às críticas contra a senadora, foi comum o uso de hashtags como #Bolsonaroreeleito. A presidenciável também foi alvo de críticas por parte da esquerda. A narrativa em circulação indica que Tebet seria uma “falsa” feminista, por seu posicionamento liberal, além de “anti-indígena”.
  • Houve ainda um aumento considerável das menções a Thronicke. Momentos antes do debate, as menções à senadora chegavam a zero, mas durante o dia 29, os comentários sobre Soraya se mantiveram na casa dos milhares. Destacam-se críticas de ambos os campos do espectro político, além de pedidos para que Soraya revele o que sabe sobre Bolsonaro. O mesmo crescimento não ocorreu com d’Ávila que, logo após o debate, voltou a apresentar um número ínfimo de menções.

 

Nuvem de termos do debate da Band no Twitter
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

 

  • A jornalista Vera Magalhães, chamada por Bolsonaro de “vergonha do jornalismo brasileiro” após uma pergunta sobre o menosprezo do presidente por mulheres, motivou mensagens de apoio significativas, ao passo em que também atraiu ataques de base bolsonarista por suposta “parcialidade”;
  • Postura ativa de Simone Tebet, especialmente em relação a Lula e Bolsonaro, marcou menções positivas à candidata. Supostos acenos ao petista e apontamentos de violência de Bolsonaro contra as mulheres brasileiras também obtiveram destaque;
  • A menção de Bolsonaro à tríade “Deus, Pátria e Família”, em sua despedida do debate, foi comparada por usuários ao “lema criado pelo fascismo” usado pelo integralismo brasileiro. Viralizou publicação do perfil “Judeus pela Democracia” que exibia documento com o símbolo da suástica nazista ladeado pelo mesmo lema, exposto no Museu Judaico de São Paulo;
  • A briga entre Ricardo Salles e André Janones nos bastidores do debate atraiu os holofotes. Salles foi chamado de “arruaceiro” e usuários destacaram os crimes ambientais pelos quais o ex-ministro é investigado, o que acabou respingando negativamente em Bolsonaro;
  • Fake news recente sobre Lula ser a favor de “perseguição aos cristãos” e do “fechamento de igrejas”, compartilhada por Bolsonaro, foi mobilizada por seus seguidores contra o petista;
  • A promessa de Lula de que revogaria os pedidos de sigilo de 100 anos de Bolsonaro atraiu críticas ao atual presidente. O momento foi lido como um movimento enérgico do petista, que, como os usuários pontuaram, teria optado por uma estratégia de “retaguarda”;
  • A expressão “Ex-presidiário Lula”, evocada por Bolsonaro no debate, foi apropriada instantaneamente pela base do presidente para ataques ao petista, assim como “manobra jurídica”. O termo também atraiu base de apoio de Lula com mensagens que apontavam que Bolsonaro também seria “ex-presidiário”.

 

Links do YouTube sobre o debate na Band
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: YouTube| Elaboração: FGV ECMI

 

A polarização da cena política se reflete nos vídeos sobre o debate eleitoral no YouTube, com foco nas situações de embate e confronto entre Bolsonaro e Lula. A perspectiva bolsonarista se destaca nesta rede, com vídeos que indicam que o presidente teria se saído melhor no debate, superando Lula e a suposta parcialidade da imprensa. O ataque de Bolsonaro contra a jornalista Vera Magalhães apareceu de modo bastante lateral, o que pode indicar uma tentativa de abafar a situação.

 

Associação de temas e presidenciáveis

 

Associação entre Lula e temas citados no debate da Band
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

 

  • O momento no qual Bolsonaro chama Lula de ex-presidiário movimentou o debate sobre segurança/corrupção, sobretudo, em tom crítico ao petista. O fato de Lula ter tido o seu pedido de resposta negado pela comissão da Band gerou ainda comentários em tom de deboche contra o ex-presidente. Apoiadores de Bolsonaro foram preponderantes nesta discussão, utilizando amplamente o termo “ex-presidiário” para se referir ao petista. O debate sobre corrupção também se desdobrou em outra disputa. De um lado, foram feitas críticas ao petista, enumerando escândalos do seu governo e acionando hashtags como #LulaLadrão e #PTnuncamais. Do outro, comentários que indicam que a corrupção no governo Bolsonaro seria muito pior.
  • Por outro lado, em economia, destacam-se comentários de apoio a Lula, com vários compartilhamentos do diálogo entre o petista e Soraya Thronicke, no qual o candidato afirma que a senadora pode não ter percebido as mudanças no país, mas que seus funcionários o fizeram. Estes comentários carregaram um tom afetuoso ao tratarem das políticas sociais do governo Lula.
  • Comentários da base governista e de apoiadores de Ciro Gomes movimentaram a discussão sobre desinformação, com afirmações de que Lula seria mentiroso. No entanto, petistas também disputaram o debate, invertendo as acusações e alegando que Bolsonaro e Ciro estariam divulgando declarações falsas. Nota-se um afastamento entre Lula e Ciro, neste momento mais próximo de Bolsonaro.
  • O diálogo entre Lula e Simone acerca da condução da pandemia de Covid-19 e do sigilo de 100 anos do processo contra o ex-ministro General Pazuello pautou a discussão sobre saúde. O ataque de Lula contra Bolsonaro gerou elogios ao ex-presidente, com comentários que indicam que as pessoas estavam esperando que alguém falasse sobre o tema.
  • A educação apareceu de modo mais lateral no Twitter, com destaque para comentários que elogiam as políticas educacionais do governo Lula. A narrativa em circulação carrega um tom esperançoso e aponta que o petista pode consertar os danos de Bolsonaro à pasta.

 

Associação entre Bolsonaro e temas citados no debate da Band
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

 

  • Em segurança/corrupção, dado de que Bolsonaro é o presidente que menos investiu em políticas de enfrentamento à violência contra a mulher viraliza entre perfis de esquerda após o debate. O assalto em que o presidenciável teve a arma roubada, relembrado por Lula, foi mobilizado pelos usuários para criticar sua política de segurança centrada no armamento da população. O candidato também foi criticado pela escolha de ministros envolvidos em escândalos de corrupção, além de ter sido associado a termos como “orçamentos secretos”, “rachadinhas” e “bolsolão do MEC”.
  • O machismo foi associado ao candidato em decorrência de declarações anteriores contra mulheres, relembradas no debate, mas sobretudo por situações protagonizadas por Bolsonaro e as duas presidenciáveis e a jornalista Vera Magalhães no próprio evento. Ataques do presidenciável mobilizaram iniciativas de apoio às mulheres, especialmente a Magalhães;
  • A desinformação foi apontada por usuários a partir de fatos distorcidos a respeito do Auxílio Emergencial mencionados pelo candidato. Acusações de Bolsonaro de que entrevistadores e presidenciáveis estariam mentindo, por sua vez, mobilizaram base do presidente neste tema;
  • Apontada por Ciro Gomes, “insensibilidade” de Bolsonaro na condução da pandemia de Covid-19 marcou as menções em saúde do candidato. Referências à protelação do processo vacinal e ao superfaturamento das vacinas foram tópicos recorrentes dentro do tema.

 

Associação entre Ciro Gomes e temas citados no debate da Band
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

 

  • O fato de Bolsonaro ter escolhido Ciro, ao invés de Soraya ou Simone, para falar sobre agendas direcionadas às mulheres, movimentou o debate sobre machismo, pautado por críticas ao presidente e comentários mais neutros sobre o pedestista. A discussão também contou com críticas a Ciro por não ter defendido Vera Magalhães, após ataque de Bolsonaro.
  • A discussão sobre segurança foi marcada pela crítica de Ciro a Bolsonaro no que tange à política de armamento. Destacaram-se elogios à postura de Ciro, além de comentários que ironizam o episódio no qual um assaltante teria roubado a arma de Bolsonaro. Por outro lado, Ciro foi alvo de deboches na discussão sobre economia, após prometer retirar nomes de endividados do SPC em três dias. A promessa foi vista como absurda e utópica.
  • O confronto entre Lula e Ciro pautou o debate sobre desinformação, com ambos os lados se acusando de disseminar informações falsas sobre o oponente. A discussão sobre educação também foi bastante disputada: por um lado, elogios à política educacional de Ciro, citando os índices do Ceará; por outro, críticas que indicam que o candidato não se preocupa com a educação e que os índices positivos do Ceará não são consequência da sua gestão.

 

Associação entre Simone Tebet e temas citados no debate da Band
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

 

  • O machismo foi o tema protagonista entre as menções a Simone Tebet, com destaque para críticas, por parte da esquerda, que alegam que a senadora não seria feminista de verdade. Ademais, apoiadores de Bolsonaro repercutiram a fala do candidato, relembrando a presença da Dra. Nise Yamaguchi na CPI da Covid-19 e alegando que Tebet, além de se vitimizar, não se importa com as mulheres. Ataques simultâneos contra Vera Magalhães e Tebet também foram mobilizados pela base governista.
  • Elogios à senadora se destacaram no debate sobre saúde, no qual falas de Tebet durante o debate foram amplamente compartilhadas. Em especial, aquelas que criticam a condução da pandemia de Covid-19 pelo governo federal, colocando ênfase na suposta falta de sensibilidade do presidente.
  • As falas de Tebet sobre violência política pautaram a discussão sobre segurança, com comentários favoráveis à presidenciável. O debate também foi marcado pelo momento no qual a senadora afirma que Bolsonaro defendeu um assassino e torturador, com destaque para publicações que indicam o nome de Carlos Alberto Brilhante Ustra. Nesta discussão, os comentários que concordam com Tebet também foram preponderantes.
  • As discussões sobre desinformação e educação aparecem de modo bem mais lateral. Já em desinformação, são preponderantes as críticas que afirmam que a senadora estaria disseminando mentiras sobre Bolsonaro. Em educação, repercute a proposta de Simone de distribuir R$5 mil reais para cada aluno que concluir o ensino médio, com destaque para a circulação de muitos memes que ironizam o projeto.

 

Associação entre Soraya Thronicke e temas citados no debate da Band
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

 

  • As falas de Soraya contra o ataque de Bolsonaro à jornalista Vera Magalhães repercutiram muito bem para a candidata, sobretudo, pelas associações feitas com o termo “tchuchuca”, que viralizou recentemente. Há uma noção de que a presidenciável teria conseguido se opor ao machismo de Bolsonaro.
  • A economia também foi destaque nas menções à senadora, com predominância de críticas à candidata, após Lula afirmar que ela não percebeu os avanços econômicos em seu governo, mas que seus funcionários se lembram. A proposta de Soraya de desenvolver um imposto único também pautou o debate, com comentários que indicam que o projeto seria utópico.
  • Na discussão sobre segurança repercutem pedidos para que Soraya revele as informações que poderiam colocá-la em risco, conforme dito em debate. Já o fato de a senadora ter desmentido Bolsonaro, indicando que o seu governo queria conceder apenas R$200 reais de auxílio emergencial movimentou o debate sobre desinformação, de modo majoritariamente positivo para a presidenciável.
  • Em saúde, as declarações de Soraya sobre ter tomado a vacina contra a Covid-19 e não ter virado jacaré, em referência crítica à fala de Bolsonaro durante a pandemia, também geraram comentários positivos para a senadora.

 

Associação entre Felipe d’Avila e temas citados no debate da Band
Período: 28 e 29 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV ECMI

 

  • Em economia, a frequência com que d’Avila evocou termos como “privatização” e “agronegócio” motivou memes e mensagens irônicas que apontaram para um discurso restrito do candidato. Em privatização, essa percepção foi ainda mais aprofundada ao manter o tom humorístico do tema anterior e reforçar uma atmosfera caricatural em torno do candidato;
  • A declaração do candidato de que o agronegócio brasileiro seria o mais sustentável do mundo foi destaque em meio ambiente. Ela mobilizou tanto críticas de usuários da esquerda quanto apoio da base bolsonarista, que declarou Lula como inimigo do modelo econômico referido.