13 nov

Daniel Ortega se transforma em “troll supremo” das redes sociais da esquerda latino-americana

por Confidencial | Nicarágua

Por Mildred Largaespada

Atualizado em 1 de dezembro, 2021 às 11:18 am

As palavras de ódio do caudilho sandinista entraram imediatamente nas redes sociais, tornando-se tendência no dia 8 de novembro

As redes orteguistas ficaram falando sozinhas enquanto todas as comunidades pró-democracia da Nicarágua se apressaram para criar conteúdo neste 7 de novembro, em uma enorme luta para posicionar hashtags como tendência na estreia de Daniel Ortega, presidente e candidato da Frente Sandinista, como um troll político, revela o monitoramento do debate público nas redes sociais durante este dia.

A perturbação mais notável do debate público nas redes sociais nicaraguenses foi ver o candidato Ortega transformado no troll supremo da rede orteguista ao qualificar seus críticos como “filhos da puta do império ianque”. As palavras de ódio de Ortega, ditas em rede nacional de rádio e televisão, entraram imediatamente nas redes sociais, tornando-se tendência no dia 8 de novembro.

Um comportamento é classificado como “troll” quando usuários emitem conteúdos degradantes, com os quais tentam chamar a atenção para distorcer o debate público e cívico nas redes sociais. O candidato Ortega ajudou a diminuir o debate público de forma acelerada, e algumas contas simpatizantes de sua ideologia alegremente criaram conteúdos replicando suas palavras, embora os principais integrantes da rede Ortega tenham tido muito cuidado em reproduzi-las, pois sabem que são observados por administradores de redes sociais que já haviam excluído suas contas por comportamento abusivo.

O regime constrói o inimigo

Já há algum tempo, sua esposa, Rosario Murillo, como vice-presidente, ostenta o infame título de troll orteguista ao proferir palavras degradantes e odiosas aos nicaraguenses que criticam sua forma de governar. Suas palavras – puchitos, satánicos, terroristas, comejenes, diabólicos, etc. – foram e são disseminadas a partir de uma estratégia de comunicação para construir o inimigo, uma necessidade comunicativa que o regime tem de desumanizar seus críticos e entorpecer os sentimentos naturais das pessoas e sua propensão à solidariedade com as vítimas.

As palavras de Ortega foram condenadas mundialmente. E a condenação poderia ter sido maior se ele tivesse traduzido corretamente a citação que usou, porque a versão original não usou a palavra “dog” (cadela), mas sim “bitch” (puta). Em todo caso, a mensagem de Ortega se referia à animalização do ser humano e à sodomização dos presos políticos que detém, para que não ofusquem suas pretensões de se perpetuar no poder.

Nas redes sociais, suas palavras também foram ridicularizadas. Isso foi retratado visualmente por @mapachejambado em seu meme, que já recebeu o certificado de tuitazo na categoria mega tuitazo da conta @memo_mclean, que destaca os tuítes com conteúdo eloquente e oportuno na esfera do Twitter na Nicarágua.

Tuíte 1: Quantos querem ver Daniel cantar e dançar SUA DERROTA?

Com vocês: um clássico

A luta para posicionar hashtags

Durante o dia 7 de novembro, nas redes sociais da Nicarágua, observou-se um grande esforço por parte dos usuários para posicionar hashtags. Descobriu-se a partir dos simpatizantes do único candidato uma rede alternativa projetada para lidar com o golpe retumbante que a empresa Meta (dona do Facebook, Messenger, Instagram e WhatsApp) lhes deu ao desmontar a “fazenda de trolls” que usavam para inflar o número de apoiadores.

Como informamos em nosso relatório anterior, a rede de propaganda alternativa consistia em pedir ajuda às contas com mais seguidores de usuários, da mídia e de membros de partidos políticos que simpatizam com a esquerda populista latino-americana. Foi assim que o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales (@evoespueblo, com 1,2 milhão de seguidores), usando a hashtag orteguista (# EleccionesSoberanas2021) e dando um impulso notável para inflar os números na Nicarágua. Também participaram as contas @OrlenysOV (do PSUV da Venezuela), @TeleSurTv, @ActualidadRT e @SputnikMundo (ambos da Rússia), por exemplo.

As contas da rede alternativa organizada pelo FSLN conseguiram impulsionar suas hashtags, tornando-se uma tendência, conforme registrado pela ferramenta Trendsmap. As hashtags usadas ​​pelos orteguistas vêm sendo impulsionadas desde 31 de outubro por simpatizantes do FSLN, porém sem se tornarem uma tendência por não terem seguidores de comunidades nicaraguenses em suas redes – que as bloquearam por comportamento violento –, de forma que as ferramentas registraram esse acúmulo e também a recuperação que tiveram quando recorreram à ajuda externa para serem notados. O impacto da rede alternativa que eles foram forçados a aplicar para se tornar uma tendência foi registrado desta forma:

O gráfico mostra como a rede orteguista impulsionou suas hashtag propagandista desde 31 de outubro, obtendo pouco impulso orgânico. (Fonte de dados: Twitter através da Socioviz, registrado de 31 de outubro a 8 de novembro de 2021)

Por parte dos usuários nicaraguenses simpatizantes da causa democrática (conhecida como Azul y Blanco), observou-se uma enorme criação de conteúdo próprio, ou seja, não organizado como uma operação de propaganda, mas individual e espontâneo. Na verdade, as diferentes comunidades digitais não entraram em acordo a respeito do uso de uma única hashtag devido às divergências ideológicas que existem entre elas. Isso, por sua vez, diminuiu seu impacto, embora os ativistas digitais “azuis e brancos” tenham conseguido se tornar uma tendência pelo trabalho que realizaram.

Assim, alguns conteúdos que obtiveram mais de mil curtidas e que não utilizaram as hashtags não se refletiram no volume registrado pelas ferramentas de análise que revelam as tendências. “A verdade é que ninguém concorda porque muitas pessoas não querem se relacionar com um movimento específico, já que ele não se alinha com seus valores pessoais”, disse uma das mais fortes criadoras de conteúdo político no Instagram, que prefere não se revelar por medo de retaliação.

O usuário @Nicaclic do Twitter, que usa uma conta anônima para se proteger do regime, apreciou o apoio que o povo nicaraguense deu às hashtags “azul e branco”: “Tudo bem, nós escrevemos esses conteúdos porque nascem de nós, porque saem, é algo voluntário, falamos pelos presos políticos, pela demanda, para que os meios de comunicação não sejam censurados e por apoi às vítimas em sua busca por justiça. Esses elementos são o que nos fazem tuitar. O conteúdo azul e branco é maior do que o uso de hashtags”.

Tuíte 2: Aqui está o comportamento da HT #YoNoBotoMiVoto.

Um sucesso que não precisa de Fazendas de Trolls Sandinistas ou Chavistas. No domingo, #7N, demonstramos nas urnas e nas redes que a Nicarágua NÃO votou. Não perca a análise de @1001tropicos http://ow.ly/nBBY50GJscj
#SOSNicaragua

A conta política triunfalista do regime de Ortega e Murillo foi deixada falando sozinha nas redes sociais da Nicarágua, onde não conseguiram engajar os usuários das diferentes comunidades que participam da conversa digital. Eles continuaram espalhando a propaganda triunfalista apenas entre os simpatizantes das ditaduras mundiais.

O debate cívico digital da Nicarágua não precisava ser rebaixado ao nível em que o regime o coloca atualmente, nem as redes sociais nicaraguenses deveriam continuar a servir como amplificadores da narrativa de ódio e da construção do inimigo. Os usuários nicaraguenses nas redes sociais precisam trocar ideias, convergir em conteúdos que valorizem as aspirações dos jovens, e não frustrá-las. Embora o vulgar e o grotesco queiram dominar o conteúdo das redes sociais, temos que incentivar os usuários a serem maiores do que os convites para o debate odioso entre os nicaraguenses.

 

*A Sala de Democracia Digital é uma ação da FGV DAPP, em parceria com Animal Político, no México, Bolivia Verifica, na Bolívia, Confidencial, na Nicarágua, Chequeado, na Argentina, Espacio Público, no Chile, Linterna Verde, na Colômbia, e Ojo Público, no Peru. Nós monitoramos o debate público nas redes sociais pela América Latina.

A análise original está disponível no site do Confidencial aqui.

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