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Cartas pela democracia atingem grupo aliado a Bolsonaro, que reage com ironias e menosprezo ao seu potencial alcance

Atualizado em 9 de agosto, 2022 às 4:52 pm

  • Interações entre Lula e Janones colocam o candidato do Avante entre os principais perfis do campo apoiador à candidatura do PT;
  • Grupo ligado à terceira via critica candidaturas de Lula e Bolsonaro por supostamente se recusarem a comparecer em debates;
  • A decisão do diretório estadual do PT-RJ de romper com a candidatura de Marcelo Freixo gera críticas ao partido do ex-presidente Lula entre apoiadores não filiados;
  • Participação de Michelle na campanha de Bolsonaro ainda repercute mais entre antigos apoiadores do presidente.

O crescimento do número de assinaturas e a adesão de figuras relevantes do cenário político, econômico e acadêmico às cartas pela democracia motivaram aumento de interações entre o grupo alinhado à candidatura de Jair Bolsonaro. É o que mostra levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP), que, entre 25 de julho a 02 de agosto, identificou mais de 1,9 milhão de interações no debate sobre os presidenciáveis Jair Bolsonaro (PL), Lula (PT), Ciro Gomes (PDT), André Janones (Avante) e Simone Tebet (MDB) no Twitter.

A aproximação entre André Janones e Lula também foi destaque nas redes, colocando o candidato do Avante entre os principais perfis do conjunto de apoio ao petista. No grupo da terceira via, por sua vez, destaca-se o presidenciável Ciro Gomes, que fez críticas às restrições que Lula e Bolsonaro propuseram para a realização de debates. O PT foi alvo de críticas após o diretório do Rio de Janeiro decidir pelo rompimento do apoio à candidatura de Marcelo Freixo (PSB), após o candidato Alessandro Molon (PSB) oficializar sua candidatura ao Senado. No campo da direita, a maior participação de Michelle Bolsonaro na campanha à reeleição de Jair Bolsonaro aumentou as menções à primeira-dama, mas ainda não se refletiu na ampliação do alcance da campanha para novos públicos.

 

Presidenciáveis

Mapa de interações de menções a presidenciáveis no debate sobre eleições no Twitter
Período: de 25 de julho a 02 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

Direita ‒ 45,93% dos perfis | 52,72% das interações
O grupo formado por lideranças políticas, jornalistas e influenciadores ligados ao presidente Jair Bolsonaro, criticou as cartas em defesa da democracia, com destaque para um tweet irônico do presidente dizendo que assinou a carta, que teve o maior volume de compartilhamentos dentro do grupo. Os perfis afirmaram que Bolsonaro vai vencer as eleições ainda no primeiro turno e divulgaram a convocação para o ato do dia 7 de setembro como um exemplo de compromisso com a democracia. O grupo ainda repercutiu dados positivos e feitos do governo, como a redução no preço dos combustíveis, o combate à inflação e a redução no desemprego. Os usuários ainda criticaram o ex-presidente Lula, lembrando denúncias de corrupção e acusando o petista de mentir ao dizer que é responsável pela transposição do Rio São Francisco. As convenções partidárias do PL e de outros partidos também foram lembradas, com destaque para elogios à postura da primeira-dama Michelle Bolsonaro no evento que confirmou a candidatura do marido.

Esquerda ‒ 42,06% dos perfis | 32,54% das interações
Grupo composto por lideranças políticas, influenciadores e jornalistas ligados ao ex-presidente Lula. O ex-presidente petista se destacou falando sobre o encontro com a vice-presidente eleita da Colômbia e com conteúdos diretamente contra Bolsonaro. Nesse grupo, também está inserido o presidenciável André Janones, que sinalizou positivamente a Lula após ser procurado por lideranças ligadas ao petista. As agendas de pré-campanha e visitas de Lula a estados têm destaque nos conteúdos do presidenciável e seus apoiadores. Menções ao favoritismo de Lula nas pesquisas eleitorais e comparações entre o seu governo e o governo Bolsonaro – especialmente com relação ao preço dos alimentos e dos combustíveis – também compõem o debate dentro do grupo. Os apoiadores do ex-presidente também criticam Ciro Gomes por declarações ao petista e teceram críticas à proximidade de Simone Tebet com o Agro.

Terceira via ‒ 8,38% dos perfis | 13,94% das interações
Liderados por Ciro Gomes, o grupo formado por lideranças políticas e jornalistas criticou a ausência de Bolsonaro e Lula no primeiro debate eleitoral, com destaque para o próprio presidenciável, que lamentou que o debate tenha sido cancelado e divulgou sua entrevista para a GloboNews. O grupo também comentou o projeto político e o preparo do presidenciável, comparando sua trajetória com a de Lula e Bolsonaro e criticando os dois candidatos. Elogios feitos pela imprensa e entrevistas de Ciro Gomes foram amplamente repercutidos por seus apoiadores. Os usuários ainda expuseram seus motivos para votarem no presidenciável e argumentaram que Lula e Bolsonaro representam um mesmo projeto e tem poucas diferenças.

 

Principais tuítes dos grupos no mapa de interações
Período: de 25 de julho a 02 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

Nuvem de palavras do debate sobre as cartas pela democracia
Período: de 25 de julho a 02 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

  • Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro receberam as cartas pela democracia com críticas e ironias. Os tweets do presidente, dizendo que assinou o manifesto em favor da democracia, chamando a carta de “manifesto pela democracia dos amigos do Lula” e chamando quem assinou a carta de “cara de pau e sem caráter” também teve grande destaque e foi compartilhado pelos usuários como forma de apoio e também para criticar o presidente;
  • Os apoiadores do presidente também destacaram que a iniciativa de uma das cartas foi do empresário Josué Gomes, filho de José Alencar, ex-vice-presidente de Lula, como maneira de deslegitimar a mobilização por estar ligada a apoiadores do petista. Outras assinaturas também foram usadas para criticar o manifesto, como a de Luciano Huck, João Dória e Rosangela Moro e banqueiros, afirmando que essas pessoas têm relação com o PT e querem prejudicar o Brasil e Bolsonaro. A assinatura do dono das Lojas Renner também gerou indignação nos usuários, que propuseram um boicote à loja;
  • Em resposta as cartas, o Manifesto pela Liberdade também foi circulado em menor volume pelos apoiadores do presidente. Os usuários exaltaram o número de assinaturas do manifesto concorrente – que teria ultrapassado a primeira versão em prol da democracia, chamada por eles de manifesto petista – e dizem que esse seria o verdadeiro manifesto que defende a democracia;
  • Entre os críticos do presidente Jair Bolsonaro, a carta pela democracia foi divulgada de forma positiva, destacando o número de assinaturas e os apoios. Os usuários também repudiaram os ataques sofridos por hackers e as declarações de Bolsonaro, considerando esses acontecimentos provas de que a carta teria incomodado a base bolsonarista;

O racha PT/PSB no Rio de Janeiro

 

A decisão do diretório estadual do PT do Rio de Janeiro de romper aliança com o PSB e retirar apoio a candidatura de Marcelo Freixo ao governo do estado gerou críticas ao partido de Lula no campo progressista. É o que mostra levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP), que, entre 25 de julho e 03 de agosto, analisou 24,9 mil tuítes.

Enquanto lideranças petistas do Rio de Janeiro defenderam a decisão do partido de romper com a aliança, após o PSB anunciar Alessandro Molon como candidato ao senado, lideranças de outros partidos de esquerda e influenciadores progressistas criticaram a decisão e declararam apoio a Molon e Freixo. Se destacam as críticas feitas a André Ceciliano – que assumiria a vaga pelo PT no acordo original – e questionamentos sobre a possibilidade de Ceciliano e lideranças do partido apoiarem Caio Castro, ao invés de Marcelo Freixo. No grupo de centro-esquerda, Lula é responsabilizado por manipular partidos aliados, através da recuperação de críticas feitas por Ciro Gomes ao petista. Na direita, o debate teve pouca repercussão entre os influenciadores, sem a participação de lideranças políticas.

Evolução de menções ao racha PT/PSB no Rio de Janeiro no Twitter
Período: de 12h de 02 de agosto às 12h de 03 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

  • O debate obteve pico na noite de 02 de agosto, impulsionado por tuítes que criticaram a decisão do PT-RJ de retirar o apoio à candidatura de Marcelo Freixo ao governo do Estado do Rio de Janeiro. As principais críticas foram feitas por influenciadores, jornalistas e acadêmicos de esquerda e de oposição ao governo Bolsonaro, mas sem atividade de militância interna no PT, além de apoiadores da candidatura de Ciro Gomes;
  • A partir da madrugada de 03 de agosto, houve a intensificação de tuítes feitos por militantes e filiados do PT defendendo a decisão do diretório estadual do partido no Rio de Janeiro e afirmando que Alessandro Molon e o PSB não cumpriram o acordo previamente estabelecido;
  • Na manhã de 03 de agosto, houve a entrada de perfis alinhados ao governo no debate, com ironias feitas por influenciadores, mas sem a presença das lideranças que costumam comandar as ações digitais desse conjunto.

 

Mapa de interações sobre o racha PT/PSB no Rio de Janeiro mo Twitter
Período: de 12h de 02 de agosto às 12h de 03 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

Esquerda alinhada ao PT (Vermelho) ‒ 24,99% dos perfis | 30,23% das interações
Grupo formado majoritariamente por lideranças do PT do Rio de Janeiro e influenciadores ligados ao partido, com destaque para @albertocantalic, @JoaozinhoPTRJ e @FernandoHortaOf. O grupo defende a decisão do PT de romper com o PSB, atribuindo a Alessandro Molon a responsabilidade por prejudicar a candidatura de Marcelo Freixo a governador e desfazer o acordo com o PT. Os petistas avaliam que existe uma disputa interna no PSB entre Molon e Freixo e lamentam o prejuízo que a saída do PT pode causar à candidatura de Freixo, mas defendem a viabilidade e manutenção da candidatura de André Ceciliano. No grupo, também é possível observar usuários alinhados ao petismo, mas que se recusam a votar em Ciciliano e apontam que Molon seria um candidato mais viável para a esquerda no Rio de Janeiro, contrariando a decisão estadual do partido.

Esquerda não alinhada ao PT (Verde) ‒ 15,08% dos perfis | 17,36% das interações
Formado por influenciadores e lideranças políticas de esquerda não alinhadas ao petismo, o grupo é crítico à decisão do PT-RJ de não apoiar Marcelo Freixo e considera um erro do partido e afirmam que o PT no estado sempre teve posturas que prejudicam o processo político. Os usuários também destacam que não apoiarão André Ceciliano como senador e ainda sugerem que o partido pode se aliar ao governador Cláudio Castro, a quem Marcelo Freixo faz oposição. Entre os perfis do grupo que se destacam, estão @taliriapetrone, @nandonovofront, @lanadeholanda e @tesoureiros.

Influenciadores progressistas (Rosa) ‒ 13,25% dos perfis | 13,72% das interações
O grupo formado por influenciadores e jornalistas progressistas também critica o PT-RJ por retirar apoio à candidatura de Marcelo Freixo, defendendo que Alessandro Molon tem mais chances de vencer a disputa pelo senado do que André Ceciliano. O grupo ainda cita outros acordos não cumpridos entre PT e PSB no pleito de 2022 e lamentam a possibilidade de Freixo perder as eleições por causa do rompimento com o PT. Entre os perfis de mais destaque no grupo, estão @felipeneto, @lolaescreva, @guganoblat e @joaocaetanoleite.

Centro-esquerda (Laranja) ‒ 9,14% dos perfis | 9,94% das interações
Conjunto formado por apoiadores da candidatura de Ciro Gomes à presidência do Brasil. Junto à disseminação de links que reportaram o episódio, o grupo publicou diferentes tuítes que acusam Lula de manipular partidos aliados de modo egoísta, sem se preocupar com o bem do país ou com a derrota de Jair Bolsonaro. As críticas feitas por Ciro Gomes ao PT foram recuperadas pelos apoiadores, que acusaram o partido de ser um “dementador político”. Entre os principais perfis, destacam-se as páginas @APrimeiraVia e @todoscomciro, além do professor @gustavocastanon.

Direita (Azul) ‒ 8,09% dos perfis | 7,13% das interações
Base formada por influenciadores alinhados ao governo federal. Em geral, a divergência foi tratada com ironia, com acusações sobre suposta desorientação por parte das lideranças do campo. Chama a atenção, no entanto, o fato de que o debate foi repercutido por influenciadores sem cargos no governo, como @taoquei1 e @TonyStarkMeta, e não por lideranças e políticos de direita, como usualmente se observa no debate no Twitter.

Comunicadores de oposição (Lilás) ‒ 5,61% dos perfis | 5,58% das interações
Grupo formado por jornalistas, acadêmicos e influenciadores digitais de oposição a Bolsonaro. A maior parte dos tuítes criticam a decisão do PT-RJ de romper o apoio à candidatura de Marcelo Freixo, acusando o partido de alimentar uma divergência “menor”, em vez de se unir com outros partidos visando derrotar o governo Bolsonaro. Entre os perfis desse grupo, destacam-se o jornalista @fernandobarros, o acadêmico @thiamparo e o jornalista e ativista @delucca.

 

A influência de Michelle Bolsonaro

 

A maior participação de Michelle Bolsonaro na campanha de Jair Bolsonaro alavancou o número de menções à primeira-dama, mas a repercussão de suas falas ainda se mantêm restritas a públicos já apoiadores do presidente. É o que mostra levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP), que, entre 20 de julho e 1º de agosto, identificou mais de 124,2 mil menções a Michelle Bolsonaro no Twitter e 7,6 mil posts em páginas, grupos públicos e perfis verificados no Facebook.

 

Evolução de menções a Michelle Bolsonaro no Twitter
Período: de 20 de julho a 01 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

O pico de menções a Michelle Bolsonaro esteve associado ao discurso proferido na convenção de lançamento da candidatura de Jair Bolsonaro à presidência, no dia 24 de julho, no Maracanãzinho. As menções à primeira-dama iniciaram a subida no dia do evento e atingiram o pico na segunda-feira, dia 25 de julho. Após esse período o volume de menções voltou ao patamar observado anteriormente. O leve aumento observado no dia 1º de agosto foi gerado pela repercussão crítica, entre setores aliados a Bolsonaro, a uma reportagem do jornal O Globo que noticiou que Michelle levou evangélicos para orar à noite no Palácio do Planalto.

Na distribuição entre grupos políticos, não foi identificado movimento significativo de disseminação das menções à Michelle entre novos públicos. Cerca de 90% do debate sobre a primeira-dama se distribuiu entre grupos já consolidados do debate público e perfis declaradamente em apoio a Lula ou a Bolsonaro.

Os grupos de apoio a Bolsonaro somaram 66,8% dos perfis e cerca de 75% das interações. Ou seja, a maior parte da repercussão das ações de Michelle, por enquanto, ainda se concentra entre os próprios apoiadores do presidente, com destaque para influenciadores digitais, políticos e candidatos, como Tarcísio Gomes de Freitas.

O conjunto de apoio à candidatura do ex-presidente Lula somou 23,8% dos perfis e 20,5% das interações do debate. Os principais tuítes criticam o discurso de Michelle, apontando posição submissa da primeira-dama e relembrando as suspeitas de corrupção reveladas ao longo do governo.

Nuvem de palavras das menções a Michelle Bolsonaro no debate eleitoral no Twitter
Período: de 20 de julho a 01 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

  • O discurso da primeira-dama Michelle Bolsonaro na convenção do PL repercutiu entre apoiadores do presidente, que repercutiram os trechos em que ela fala de 70 leis que ele aprovou para a proteção das mulheres, rebatendo as acusações de que o marido “não gosta de mulheres”;
  • O discurso da primeira dama foi elogiado por apoiadores, com destaque para o jornalista Augusto Nunes, que disse que Michelle tem “luz própria”; os apoiadores do presidente também elogiaram a fala da primeira-dama, dizendo ter orgulho e que ela é uma mulher sábia;
  • A notícia do O Globo de que Michelle chama evangélicos para orar no Palácio do Planalto também gerou elogios a primeira-dama e críticas ao jornal; a cobertura da convenção partidária pela imprensa também foi motivo de críticas dos apoiadores, que consideraram que não houve destaque suficiente para o ato ou o discurso de Michelle;
  • A relação de Michelle com a igreja evangélica também aparece nos conteúdos referentes à convenção do PL. Enquanto apoiadores do presidente exaltam a primeira-dama e repercutem a fala de Michelle sobre Bolsonaro ser “escolhido por Deus”, os críticos apontam que o Estado é laico ou dizem que Bolsonaro é “representante do diabo”;
  • Os críticos ao presidente afirmam que ele humilhou Michelle, lembrando algumas declarações de Bolsonaro dizendo que a esposa falava demais, que pedia 5 mil reais todos os dias pra ele e fazendo referência aos depósitos em cheque feitos por Marcelo Queiroz para a conta da primeira-dama;

Principais links com menções a Michelle Bolsonaro no Facebook
Período: de 20 de julho a 01 de agosto

Fonte: Facebook | Elaboração: FGV DAPP

 

  • Entre os links com mais interações no Facebook, destaca-se um artigo de opinião publicado no UOL, que critica a forma como o presidente trata mulheres e coloca em dúvida a capacidade de Michelle de convencer esse eleitorado a votar pela reeleição;
  • O tom messiânico e religioso foi destacado em seis das dez publicações com mais interações.
    Entre os domínios mais influentes no debate, nota-se o equilíbrio entre veículos de imprensa tradicional, como UOL e Poder 360, sites alternativos de extrema-direita, como o Jornal da Cidade Online, e portais sobre temas religiosos, como Gospel Mais.