22 nov

#Cacerolazo: A canção nacional que invadiu as redes sociais

Através de uma análise do contágio e das redes sociais, o Linterna Verde aborda este marco na sofrida história de protestos sociais na Colômbia

Por Carlos Cortés e Pablo Espinosa

Atualizado em 28 de janeiro, 2020 às 3:55 pm

Quando o vandalismo ameaçava eclipsar as marchas pacíficas de quinta-feira, o dia terminou com um final imprevisível: o primeiro panelaço da história do país. Um ato espontâneo de cidadania que exigia o retorno da mensagem da marcha e rejeitava a violência.

O panelaço foi também o símbolo mais forte – talvez o começo – de um movimento que havia ocorrido semanas antes à greve nacional. Às demandas dos setores organizados (estudantes, sindicalistas e indígenas, entre outros) somaram-se expressões de rejeição ao presidente Iván Duque e seu partido, que também enfrentaram a iminência da mobilização com uma estratégia equivocada. Assim, a marcha também se tornou um protesto contra a resposta oficial à marcha.

Tuíte: Quando você acha que já viu de tudo depois de décadas cobrindo notícias neste país tão complexo, surge um panelaço do qual eu não tinha me tocado. A violência e o vandalismo são graves, mas o som de panelas é uma tremenda resposta dos cidadãos.

Tuíte 2: O #Cacerolazo (“Panelaço”) está esmagando os vândalos, soando mais alto do que eles, e reivindicando nosso direito de protestar, e de fazê-lo pacificamente: o governo deve ouvir esse enorme inconformismo…

O Linterna Verde realizou uma análise de 600 mil tuítes entre a manhã de quinta-feira e o meio dia de sexta-feira. Cruzando esses dados com outras informações, descobrimos que o chamado em massa para o panelaço ganhou força no Twitter, e rapidamente ampliou-se em plataformas como Whatsapp e Facebook.

Em Bogotá, algumas pessoas dizem ter falado sobre a ideia durante a marcha. Não é de se estranhar: como expressão de cidadania e com referências na região, o panelaço estava na mente de muitos. No entanto, uma coisa é várias pessoas terem uma ideia, e outra, diferente e mais complicada, é conseguir um efeito de contágio.

#Cacerolazo: a ponta do iceberg

Como pode ser visto no gráfico, o convite para iniciar um panelaço foi disseminado inesperada e rapidamente no Twitter ontem a partir das 18h. Foi também um horário de pico durante um evento de interesse geral: as condições que fazem do Twitter uma televisão à qual todos os usuários se agarram.

Disseminação no Twitter do convite para o panelaço na noite de 21 de novembro (palavras e hashtags). Fonte: Sysomos

Em um tempo recorde de cinco horas (18h às 23h) a #Cacerolazo apareceu em 316 mil publicações no Twitter, ficando em primeiro lugar nas tendências globais antes da meia-noite.

Tendências globais no Twitter na noite de 21 de novembro. Fonte: Get Day Trends

Aparentemente, a ideia de fazer um protesto em casa começou em Cali como uma rejeição do anúncio do toque de recolher. Por conta dos tumultos e saques na cidade, a administração de Maurice Armitage ordenou a medida a partir das 20h de quinta-feira (a desinformação em torno dos acontecimentos de Cali merece uma análise separada).

Tuíte 3: Em resposta ao toque de recolher, a sociedade de Cali deve responder com um panelaço em casa hoje às 20h.

Resposta: #ÚltimaHora o prefeito de Cali, Maurice Armitage, acaba de declarar toque de recolher na cidade a partir das 19h. “Nenhum cidadão de Cali pode estar na rua a partir desse momento, porque será detido”, disse.

Fonte: Twitter / @elSostenible

Mensagens 1 e 2: Quer se manifestar SEM VIOLÊNCIA?? Nós convidamos você a pegar seu pote ou panela e batê-los na janela de sua casa hoje às 20h por 15 minutos. Contra o #toquedequeda (“toque de recolher”) em Cali Contra a #represion (“repressão”) em Bogotá Contra a ineficácia do governo #cacerolazonacional (“panelaço nacional”)

Mensagens 3 e 4: Em resposta ao toque de recolher, a sociedade de Cali deve responder com um panelaço em casa hoje às 20h. #…; #ÚltimaHora o prefeito de Cali, Maurice Armitage, acaba de declarar toque de recolher na cidade a partir das 19h. “Nenhum cidadão de Cali pode estar na rua a partir desse momento, porque será detido”, disse.

E assim foi se espalhando o convite para protestar em casa. Fonte: Sysomos

Algumas pessoas que afirmam que vários amigos de Cali lhes enviaram o convite por Whatsapp:

Tuíte 4: Um amigo de Cali me enviou por whats app

Fonte: Twitter / @Ana_Cathe

A voz também começou a se espalhar através dos grupos de Whatsapp de pessoas que estavam na marcha em Bogotá. Ao mesmo tempo estava no Twitter e logo passou para o Facebook e Instagram. Alguns receberam convites para as 19h e outros para as 20h.

Banner convocando para o panelaço que circulou pelo Whatsapp.

Com o início do panelaço, muitas pessoas se sentiram convocadas tanto pelas mensagens nas redes como pelo que ouviam em seus bairros. O protesto crescia à medida que as pessoas assistiam a dezenas de vídeos nas redes sociais em diferentes partes do país. E ao mesmo tempo, o barulho dos potes e panelas era o convite na rua.

Top 10 dos tuítes mais retuitados com hashtags que faziam alusão ao panelaço. Fonte: Sysomos

A #Cacerolazo somaram-se novas hashtags como #cacerolazonacional y #cacerolazo21n (“panelaço de 21 de novembro”). Muitos artistas e figuras públicas como Aterciopelados, Monsieur Periné e Manolo Cardona juntaram-se organicamente.

Tuíte 5: A partir de hoje algo mudou na Colômbia, chegamos à mesa crítica, estamos co-criando em um novo país, sem políticos, sem vândalos. com consciência!!

Tuíte 6: O primeiro panelaço da história da Colômbia! É disso que estamos falando, cara!

Tuíte 7: Chicó

Com várias vozes e de forma descentralizada, foi montada uma canção extemporânea que permaneceu ativa nas redes até a meia-noite – e que incluía convocatórias adicionais para os dias seguintes. O panelaço não foi apenas um “P.S.”, acabou sendo notícia. No El Espectador, por exemplo, o panelaço foi matéria de capa.

O que vimos na noite de quinta-feira foi uma amplificação que se tornou contagiosa. Como explica o pesquisador Damon Centola, é muito raro que um ‘meme’ se torne viral e que uma mensagem amplamente difundida se torne uma ação política concreta.

Tuíte 8: O que chegava a mim pelo WA (Whatsapp) foram vídeos de outros bairros. Mais do que um convite, senti como um efeito contagioso.

Em meio ao desgaste do dia, a decepção pelo vandalismo e até mesmo o medo pela cidade, o panelaço permitiu uma expressão simples mas enérgica que conectou as pessoas em suas janelas e as levou de volta às ruas – especialmente em Bogotá.

É possível que pessoas que nem conheciam a marcha nem estavam interessadas nela tenham participado desse barulho coletivo. Do mesmo modo, a ação coletiva de bater uma panela não é particularmente complexa. É importante ter em mente todos estes elementos, bem como aqueles que ligam o episódio às horas anteriores. No entanto, a canção gerada pelo panelaço foi um marco na sofrida história de protestos sociais na Colômbia. E as redes sociais desempenharam um papel fundamental nessa composição.

*A Sala de Democracia Digital é uma ação da FGV DAPP, em parceria com Chequeado, na Argentina, Linterna Verde, na Colômbia e Ojo Público, no Peru. Nós monitoramos o debate público nas redes sociais pela América Latina.

A análise original está disponível no site do Chequeado aqui.

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