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Bolsonaro e Lula fazem disputa acirrada em número de perfis no Twitter

Atualizado em 31 de agosto, 2022 às 12:40 pm

  • Entrada de André Janones no conjunto alinhado a Lula alavanca interações do ex-presidenciável e o coloca como um dos principais influenciadores do grupo;
  • Entrevista de Bolsonaro ao Flow Podcast impulsiona interações no conjunto de apoio ao ex-presidente;
  • Apesar de ainda estarem no mesmo conjunto, Ciro Gomes e Simone Tebet começam a se distanciar, iniciando a formação de redes próprias de apoiadores no Twitter;

Com a definição das candidaturas à Presidência da República, o debate entre grupos políticos começa a apresentar contornos mais estáveis, com destaque para o acirramento da disputa pela predominância no número de perfis entre os grupos de Jair Bolsonaro e Lula. É o que mostra relatório da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP), que, entre 03 e 13 de agosto, identificou mais de 1,6 milhão de interações no debate sobre os presidenciáveis Jair Bolsonaro (PL), Lula (PT), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) no Twitter.

A declaração de apoio de André Janones à candidatura de Lula foi um dos destaque do período, colocando o candidato do Avante entre os principais perfis do conjunto de apoio ao petista. É importante destacar, no entanto, que Janones não apresentava alto engajamento no Twitter, sendo mais influente no Facebook. A aproximação entre os políticos no Twitter, portanto, parece ter inflado o alcance do ex-presidenciável do Avante que, por sua vez, acrescenta uma linguagem que antes não encontrava no grupo aliado ao petista.

O conjunto alinhado a Bolsonaro apresentou alto volume de interações, impulsionado majoritariamente pela mobilização em torno da participação do presidente no podcast Flow. No grupo da terceira via, por sua vez, destaca-se o início de um possível descolamento entre os grupos de apoio de Ciro Gomes e Simone Tebet, ainda que, nesse momento, os dois candidatos ainda compartilhem de base semelhante de apoiadores.

 

Presidenciáveis

 

Mapa de interações de menções a presidenciáveis no debate sobre eleições no Twitter
Período: de 03 a 13 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

Direita ‒ 45,93% dos perfis | 52,72% das interações
Grupo formado por influenciadores, políticos, jornalistas e liderado pelo presidente @jairbolsonaro. O presidente divulgou feitos do seu governo e criticou o ex-presidente Lula e o PT. Se destacam as postagens do presidente criticando o PT por rezar e usar a bandeira do Brasil em seus eventos políticos e desmentindo a informação de que havia almoçado com Guilherme de Pádua. Os apoiadores do presidente elogiaram seu governo e desempenho como presidente, divulgando pesquisas eleitorais em que o presidente tem vantagem e seu apoio popular. O grupo também destacou a participação de Bolsonaro no Flow Podcast e criticaram o Jornal Nacional por não permitir que Bolsonaro fosse entrevistado no Palácio da Alvorada.

Esquerda ‒ 42,06% dos perfis | 32,54% das interações
Grupo formado por políticos, influenciadores e jornalistas, com grande destaque para o @LulaOficial e @AndreJanonesAdv. O grupo fala do compromisso do ex-presidente petista em manter o Auxilio Brasil, caso seja eleito, e atribuem o aumento promovido por Bolsonaro como uma resposta à liderança de Lula nas pesquisas, “agradecendo” o petista pelos benefícios. Se destacam conteúdos que já comemoram a vitória do ex-presidente em outubro e elogiam seus governos anteriores. O áudio de Lula veiculado pela cantora Anitta em um podcast também foi celebrado pelo grupo. O deputado André Janones, que se aliou ao ex-presidente recentemente, tem grande destaque em temas relacionados à assistência social e orientações sobre mobilização virtual.

Terceira via ‒ 8,38% dos perfis | 13,94% das interações
Grupo composto por jornalistas, influenciadores e veículos de comunicação não alinhados com os dois grupos majoritários, com destaque para o presidenciável @cirogomes e sua vice @AnaPaulaMatosBA. Os presidenciáveis Lula e Bolsonaro são criticados por Ciro Gomes e outros perfis que apoiam o pedetista. O cancelamento do debate por causa da ausência dos dois candidatos que lideram as pesquisas é um dos principais temas do grupo, assim como as propostas de Ciro e a participação dele em entrevistas. A presidenciável @simonetebetbr também forma o grupo, criticando a ausência de Lula e Bolsonaro dos debates.

 

Principais tuítes dos grupos no mapa de interações
Período: de 03 a 13 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

A posse de Alexandre de Moraes no TSE

Evolução de menções à posse de Alexandre de Moraes no TSE no Twitter
Período: de 03 a 17 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

  • A presença dos presidenciáveis na posse do ministro Alexandre de Moraes como presidente do TSE impulsionou o debate sobre o tribunal e a corrida eleitoral. As reações e recepções do presidente Bolsonaro e dos ex-presidentes Lula, Dilma e Temer foram comentadas pelos usuários, que compartilharam vídeos dos presidenciáveis comprimentando outros convidados e interagindo com os ministros do Supremo;
  • O discurso do ministro Alexandre de Moraes falando sobre a segurança eleitoral e a recusa de Bolsonaro em aplaudi-lo também repercutiu no debate sobre o TSE e STF, com maioria dizendo que Bolsonaro estava acuado e foi “humilhado”. Em menor volume, os apoiadores do presidente disseram que sua recusa em aplaudir Moraes demonstra fidelidade aos seus princípios e também compartilharam um vídeo de Moraes rindo com o presidente na cerimônia;
  • O debate sobre intervencionismo também esteve associado ao sistema eleitoral. Os pedidos de dados das Forças Armadas para o TSE e as definições sobre como as instituições militares vão acompanhar o processo eleitoral mobilizaram os usuários, com destaque para a retirada de um coronel que postou notícias falsas sobre as eleições da comissão que vai acompanhar o pleito e conteúdos que pedem que as Forças Armadas atuem caso o ministro Moraes tome medidas que prejudiquem a reeleição de Bolsonaro;
  • O debate sobre desinformação cresceu com o início da campanha eleitoral e as denúncias relacionadas a fake news. O trecho do discurso de Alexandre de Moraes sobre o tema foi enfatizado por usuários, em especial por críticos do presidente Bolsonaro. Apoiadores do presidente acusaram Moraes de mentir, por afirmar que o sistema eleitoral é seguro. Além da posse no TSE, postagens da ministra Damares contra o presidente Lula e a repercussão de um possível encontro entre Bolsonaro e Guilherme de Pádua também repercutiram no debate.

 

Tendências e debates no Telegram

 

O Telegram tem sido utilizado majoritariamente como uma ferramenta de mobilização por parte da base alinhada a Bolsonaro. É o que mostra relatório da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP), que, entre 1º e 16 de agosto, coletou mais de 168,1 mil mensagens de 192 grupos públicos no aplicativo de mensagens instantâneas Telegram.

 

Links mais compartilhados no Telegram
Período: de 1º a 16 de agosto

Fonte: Telegram | Elaboração: FGV DAPP

 

  • Entre os links mais compartilhados no período, destaca-se a centralidade da plataforma de vídeos YouTube , que ocupou oito das dez primeiras colocações;
    Sete entre os dez primeiros links têm o objetivo de mobilizar os usuários da plataforma a se engajarem digitalmente, buscando mostrar força e volume por parte dos apoiadores de Bolsonaro. O movimento vai de encontro ao discurso que busca deslegitimar pesquisas eleitorais a partir de métricas oriundas de redes digitais;
  • Os dados também indicam caminho contrário ao observado em análises de outros aplicativos móveis, como o WhatsApp, em que há predomínio de conteúdos negativos sobre outros candidatos e adversários;
  • A mobilização em torno de entrevistas concedidas pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo ex-ministro Eduardo Pazuello em podcasts também se relaciona com a disputa por audiência em comparação com os números obtidos pelas participações do ex-presidente Lula;
  • Outro elemento de mobilização que chama a atenção é a manutenção do engajamento em torno de enquetes virtuais – sem metodologia estatística adequada – para aferição de intenção de votos.

 

Links mais compartilhados sobre o TSE no Telegram
Período: de 1º a 16 de agosto

Fonte: Telegram | Elaboração: FGV DAPP

  • No debate específico sobre o TSE, o YouTube, segue como principal fonte de informações no Telegram, ocupando 13 das 15 primeiras colocações;
  • Diferente do observado no debate de links em geral, as menções ao TSE apresentam tom mais negativo, com títulos que remetem a celebrações por suposto enquadramento do TSE pelas Forças Armadas, ameaças e tons conspiratórios sobre supostos crimes cometidos pelo tribunal e seus ministros.

 

Associação de temas em presidenciáveis

 

Economia e segurança persistem enquanto os temas de maior associação entre os principais presidenciáveis. O preço dos combustíveis e a manutenção do Auxílio Brasil motivaram a discussão se as medidas são eleitoreiras e explicitam uma disputa de narrativa em torno da implementação de políticas sociais nos governos do ex-presidente Lula e do atual mandatário. Apoiadores de Ciro Gomes repercutem a pauta econômica alegando que Lula e Bolsonaro estão comprometidos com um mesmo projeto econômico, diferenciando a proposta do pedetista frente às desigualdades econômicas. Simone Tebet se destaca na pauta de segurança com críticas à agenda promovida pelo governo ao acesso facilitado a armas.

 

Temas associados a Jair Bolsonaro no Twitter
Período: de 03 a 17 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

  • O preço dos combustíveis e a manutenção do Auxílio Brasil são os dois principais temas na pauta de economia associados ao presidente Jair Bolsonaro. A discussão sobre se Bolsonaro vai ou não manter o Auxilio Brasil e comparações com o valor do Bolsa Família mobilizaram apoiadores e críticos, que discutem se as medidas são eleitoreiras. Com relação aos combustíveis, apoiadores comemoram a redução no valor, enquanto críticos afirmam que Bolsonaro poderia ter baixado a gasolina antes e só agiu agora porque Lula está na frente nas pesquisas;
  • Em segurança, críticos associam o presidente Bolsonaro a milícias, que se referem a ele como “genocida” e criticam sua defesa ao porte de armas. Investigações envolvendo um deputado bolsonarista e o suposto almoço do presidente com Guilherme de Pádua também se destacam no debate. Os apoiadores de Bolsonaro dizem que ele é o único que defenderá o país de “bandidos e traficantes” e citam o apoio que o presidente tem dar Forças Armadas;
  • A disputa sobre o papel do presidente Bolsonaro no projeto de lei que cria o piso salarial nacional para enfermeiros também mobilizou grupos favoráveis e contrários ao presidente no debate sobre saúde. A gestão da pandemia pelo governo federal também gerou críticas associadas ao presidente durante o período;

Temas associados a Lula no Twitter
Período: de 03 a 17 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

  • As questões envolvendo a permanência e continuidade do auxílio brasil pautaram o debate sobre economia, com duas narrativas principais em circulação. A primeira, mobilizada por uma ala mais conservadora, defende as políticas desenvolvidas pelo Governo Bolsonaro, alegando que Lula estaria disseminando falácias sobre o atual presidente e que o auxílio deverá se prolongar para 2023. Por outro lado, apoiadores de Lula fazem o movimento oposto, alegando que as políticas sociais de Bolsonaro cumprem um objetivo meramente eleitoral. A circulação de ambas as narrativas explicita que o clima de polarização se reflete também no debate destas pautas.
  • Há uma certa fragmentação temática nas discussões sobre segurança. No entanto, algumas narrativas interessantes despontam no debate, como o apoio declarado de alguns cristãos a Lula, por entenderem que o Governo Bolsonaro possui uma política nociva e violenta. Contudo, muitas críticas ao ex-presidente também foram mapeadas. Percebe-se, por exemplo, o uso de termos como “o verdadeiro genocida” para se referir a Lula, acusando-o de ser inimigo da democracia, além de corrupto e ladrão.
  • As políticas de saúde pública dos governos petistas também pautaram algumas discussões, ainda polarizadas, envolvendo o nome de Lula. Por um lado, uma série de reclamações que miram algumas lacunas do SUS e supostos casos de corrupção na pasta. Por outro, memórias nostálgicas celebram um tempo no qual a saúde pública teria sido melhor administrada. Ambos os lados utilizam destes argumentos para pautar as suas respectivas opiniões eleitorais – seja alegando que Lula deve ser eleito para retomar os avanços na saúde, seja defendendo que Bolsonaro precisa conquistar esta eleição para a pasta não retroceder.

 

Temas associados a Ciro Gomes no Twitter
Período: de 03 a 17 de agosto

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

  • Elogios às propostas de Ciro Gomes são responsáveis pela maior parte das menções ao presidenciável no debate econômico. Se destacam conteúdos relacionados a reforma tributária, juros do sistema bancário e programas para gerar emprego e reduzir o endividamento. Os apoiadores do pedetista ainda afirmam que Lula e Bolsonaro estão comprometidos com um mesmo modelo econômico e só Ciro Gomes será capaz de diminuir as desigualdades e aquecer a economia;
  • Críticas que associam Lula e Bolsonaro à corrupção e criminalidade colocam Ciro Gomes em oposição ao “genocida” e ao “ladrão”, como alternativa à polarização. Uma postagem de Ciro criticando Bolsonaro por não participar do debate e chamando ele de corrupto e genocida. Uma postagem falando que Ciro se ofereceu como refém no lugar de um bispo em uma rebelião quando era governador do Ceará também repercutiu entre apoiadores;
  • Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro recuperaram um vídeo em que Ciro, durante a pandemia, prenderia pessoas que promovessem aglomerações – incluindo pastores e padres – e declarações sobre a legalização do aborto para criticar o presidenciável por fazer vídeos em igrejas durante as eleições e impulsionar o debate sobre saúde.

 

Temas associados a Simone Tebet no Twitter
Período: de 03 a 17 de agosto

 

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

 

  • A participação no programa “Roda Viva”, no dia 8 de agosto, motivou a repercussão de várias pautas relacionadas ao projeto de governo da candidata, que lançou mão da plataforma televisiva para atacar seus principais adversários na disputa pela presidência;
  • Posicionamento contra o acesso facilitado a armas de fogo obteve repercussão na pauta de segurança. Tebet associou casos recentes de assassinatos com armas de fogo ao “discurso de ódio” pró-armas do presidente Jair Bolsonaro. Em um tuíte de repercussão significativa, mencionou os episódios que vitimaram o dirigente do PT Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu, e o atleta Leandro Lo, em São Paulo;
  • Na seara da economia, o posicionamento de Tebet contra a privatização da Petrobras chamou a atenção nas redes e foi motivo de controvérsia, sobretudo por parte de perfis pró-Bolsonaro, que atribuem ao candidato o que seria uma situação econômica favorável à estatal;
  • No quesito saúde, a constatação de que foram gerados gargalos no SUS decorrentes dos impactos da pandemia de Covid-19, como a diminuição da frequência de cirurgias eletivas, foi um dos pontos que obteve destaque e atraiu apoiadores de seu discurso.