29 jun

Bolsonaristas alegam parcialidade de ministros do TSE e antecipam contestação da inelegibilidade do ex-presidente

Atualizado em 5 de julho, 2023 às 12:06 pm

  • Repercutindo falas de Bolsonaro e alegando parcialidade e incoerência no julgamento, apoiadores do ex-presidente antecipam resultado desfavorável, mas alegam que “nem tudo está perdido”;
  • Em debate equilibrado no Twitter, perfis progressistas repercutem trechos das falas de ministros que votaram pela condenação e dão ênfase às vaias recebidas pelo ex-presidente em aeroporto;
  • Entre os ministros, Benedito Gonçalves e Raul Araújo ganham destaque no segundo e terceiro dia de julgamento, recebendo críticas e elogios, conforme a posição política dos perfis.

O terceiro dia de julgamento pela inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro no TSE foi marcado pela disputa dos campos políticos em torno da expectativa de condenação, e alegações de parcialidades e incoerências dos ministros durante a leitura dos votos. É o que mostra levantamento da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da FGV, que analisou postagens sobre o tema no Twitter e Facebook até às 15h do dia 29 de junho de 2023.

Enquanto perfis progressistas celebraram os votos favoráveis à condenação e repercutiram vaias recebidas por Bolsonaro em aeroporto, perfis alinhados ao ex-presidente criticaram a Justiça Eleitoral e reforçaram a narrativa estabelecida desde o início do processo jurídico, de que Bolsonaro estaria sendo vítima de uma perseguição e seria julgado por um Tribunal parcial. No entanto, diferente dos primeiros dias de julgamento em que prevalecia a ideia de que o capital político do ex-presidente não seria afetado por um resultado desfavorável, com a leitura dos votos dos ministros e a antecipação de uma provável condenação, já é possível observar uma mobilização para questionar a legitimidade do processo e apontar caminhos para reverter a decisão, em processo similar ao final da disputa eleitoral e o fortalecimento das narrativas que falavam em fraude nas urnas.

Twitter

Mapa de interações no debate sobre julgamento de Bolsonaro no Twitter
Período: 29 de junho, até às 15h | 84,5 mil postagens

Fonte: Twitter | Elaboração: Escola de Comunicação, Mídia e Informação da FGV

Azul – 33,2% perfis | 34,9% interações
Parlamentares bolsonaristas e perfis de mídia hiperpartidária de direita compõem o grupo, que questiona a ideoneidade do Judiciário e atribui a realização do julgamento a uma suposta parcialidade do TSE. Os deputados federais @josemedeirosmt, @zambelli2210 e @carlosjordy estão na dianteira do conjunto, assim como os veículos @vanliberdade e @jornaldacidadeo. Tem destaque a acusação de @josemedeirosmt de que o ministro Alexandre de Moraes praticaria “ativismo judicial” desde o governo Bolsonaro para prejudicar o ex-presidente. Tenta-se, ainda, associar o governo Lula a uma “ditadura”. No grupo, ainda se destacaram elogios ao ministro Raul Araújo por ser “corajoso” e defender a intervenção mínima da Justiça. Os veículos hiperpartidários ressaltaram declarações de Bolsonaro em que ele afirma que sempre jogou dentro das “quatro linhas”, sugerindo endosso à ideia de que ele seria inocente das presentes acusações.

Laranja – 33,2% perfis | 40,7% interações
Influenciadores, políticos e veículos midiáticos alinhados ao campo progressista, a exemplo de @lazarorosa25, @AndreJanonesAdv e @brasil247, aparecem em conjunto com jornalistas e veículos midiáticos tradicionais, como @miriamleitao, @GugaNoblat e @globonews, e perfis variados de cobertura política, como @pesquisas_2022. Compondo coro favorável à declaração de inelegibilidade, o grupo acompanha a sessão e o placar de votação, além de reproduzir, em tom elogioso, trechos das decisões dos ministros que votaram nessa direção. Destacam-se também diversas críticas ao posicionamento divergente de Raul Nunes. Influenciadores progressistas, como @rede_marco, também repercutem a chegada de Bolsonaro ao Rio de Janeiro, reforçando alegadas “vaias” e “xingamentos” ao ex-presidente.

Azul claro – 7,1% perfis | 5,9% interações
Orbitando em torno de @jairbolsonaro, o grupo reúne aliados do ex-presidente: desde deputados federais como @mfriasoficial e @bolsonarosp, e o seu partido, @plnacional_, a jornalistas e influenciadores. É recorrente o discurso que classifica Bolsonaro como um “herói” que será promovido a “mártir” caso venha a se tornar inelegível. Recorre-se com frequência à narrativa de que o ex-presidente estaria sendo punido por ter lutado contra o sistema corrupto. Estende-se ainda esta narrativa de perseguição indevida a eleitores e pessoas próximas a Bolsonaro que no momento estão detidas por atentarem contra a democracia e outras acusações.

Roxo – 5,9% perfis | 4,7% interações
Influenciadores conservadores, como @nelsonpaffi e @PrJosiasPereir3, protagonizam grupo caracterizado por tuítes que desqualificam o julgamento do TSE ao apontar alegadas incoerências e parcialidades envolvidas na atuação da Corte e na ação contra Bolsonaro. Com menções à “perseguição política”, a alegada fala de Benedito Gonçalves sobre “Missão dada é missão cumprida” e o alegado posicionamento de Carlos Lupi em relação ao voto impresso, são algumas das perspectivas em destaque no grupo, que também divulga as declarações de Bolsonaro sobre o voto de Benedito Gonçalves. Veículos de mídia hiperpartidária de direita, como @RTdoBrasil, e políticos, como o deputado federal @paulobilynskyj1, também compõem o conjunto.

Evolução de menções aos ministros do TSE no Twitter
Período: 22 a 29 de junho, até às 15h

Fonte: Twitter | Elaboração: Escola de Comunicação, Mídia e Informação da FGV

  • Com exceção do ministro Alexandre de Moraes, usualmente em alta no debate público digital, as menções aos demais ministros seguem em considerável baixa até picos que coincidem com as suas participações no julgamento em curso e na repercussão que se segue aos momentos das falas;
  • O relator Benedito Gonçalves foi recorrentemente evocado e acumula 77.200 menções no período analisado, sendo superado apenas por Moraes, com 137.550. Em particular, Golçalves foi frequentemente mencionado nos dias 27 e 28. Em geral, os tuítes comentam o voto favorável à inelegibilidade, ainda na noite de 27, repercutindo-o também no dia seguinte. Há críticas e questionamentos à lisura do ministro, bem como elogios e comemorações;
  • A leitura de voto contrário à declaração de inelegibilidade do ex-presidente mobilizou forte pico de menções ao ministro Raul Nunes, principal destaque no debate até então registrado no dia 29, com 39.850 menções em poucas horas. A avaliação de Nunes sobre o nível de “gravidade” da reunião com embaixadores foi fortemente criticada por usuários favoráveis à inelegibilidade, que lembraram do posicionamento do ministro no caso das manifestações políticas no festival Lollapalooza. Já apoiadores de Bolsonaro parabenizaram-no pela “imparcialidade” e “justiça”. A intervenção de Cármen Lúcia na fala de Nunes também repercutiu na plataforma;
  • Com efeitos mais contidos no volume do debate, os votos de Floriano de Azevedo Marques e André Ramos Tavares também foram acompanhados de picos de menções. Em geral, os tuítes são de concordância ou discordância em relação aos argumentos apresentados pelos juristas, com especial destaque positivo ao discurso de Azevedo, que teria “destruído” os argumentos de Nunes e feito associação, avaliada como bem-humorada pelos usuários, como o “terraplanismo”.

Facebook

Evolução de menções no debate sobre julgamento de Bolsonaro no Facebook
Período: 29 de junho, até às 15h | 2.216 postagens

Fonte: Facebook | Elaboração: Escola de Comunicação, Mídia e Informação da FGV

Principais postagens sobre julgamento de Bolsonaro no Facebook
Período: 29 de junho, até às 15h

Fonte: Facebook | Elaboração: Escola de Comunicação, Mídia e Informação da FGV

  • As postagens de destaque no terceiro dia de julgamento no TSE repercutem as falas do presidente Bolsonaro dirigidas à imprensa, destacando os trechos em que ele diz que não vê problema em apresentar “propostas para aperfeiçoar aquilo que é a alma da democracia” e as menções a uma suposta “bala de prata” que poderia reverter o resultado do julgamento;
  • Entre as postagens favoráveis ao presidente, também se destacam elogios ao voto do ministro Raul Araújo, que foi contrário à condenação. Nos conteúdos, há ainda menções em tom conspiratório, afirmando que reviravoltas podem acontecer e mencionando a movimentação na Câmara dos Deputados para que todos os crimes eleitorais de 2022 sejam anistiados;
  • Os opositores do ex-presidente têm menos destaque no debate, mas celebram o placar parcial favorável à condenação e relembram que o ministro Raul Araújo foi quem proibiu manifestações políticas no Lollapalooza, ocasião em que Bolsonaro ainda era presidente e foi alvo de críticas dos artistas que se apresentaram no evento.