30 nov

Assustar-se é uma questão de método: a propagação do 21/22N em Cali e Bogotá

No Linterna Verde, analisamos essas duas noites frenéticas para entender qual foi a relação entre o que aconteceu ‘offline’ e o debate desordenado na internet. E, por fim, quanta coordenação houve

Por Cristina Vélez Vieira e Carlos Cortés

Atualizado em 30 de dezembro, 2019 às 3:19 pm

A essa altura está claro: na quinta-feira, dia 21, e sexta-feira, dia 22 de novembro, houve pânico coletivo em Cali e Bogotá. Com um roteiro semelhante, ambas as cidades entraram num perigoso estado de ansiedade por causa de uma mistura de notícias, rumores e mentiras, que foram transmitidos como um vírus através de sistemas de mensagens e redes sociais.

Qual foi a relação entre o que aconteceu ‘offline’ e o debate desordenado na Internet? Por que o boca a boca teve tanto impacto no Whatsapp? Quanta coordenação houve nestes episódios? No Linterna Verde, revisamos tuítes, correntes de Whatsapp e notícias para tentar responder a estas perguntas.

Desde que a greve nacional de 21 de novembro foi anunciada, no início do mês, o governo de Iván Duque tem promovido uma estratégia muito clara para enfrentá-la. As manifestações – conforme argumentavam a Presidência e o Centro Democrático – faziam parte de uma agenda internacional de desestabilização; estariam infiltradas por estrangeiros e levariam ao vandalismo. A mensagem foi claramente consagrada nas ferramentas de comunicação antes da greve: marchar era sobrar.

Legenda: Campanha da Presidência contra a Greve Nacional
Como já é amplamente conhecido, paralelamente às marchas de quinta-feira, dia 21, houve atos de vandalismo e saques no país, principalmente em Bogotá e Cali. Na capital, a Praça Bolívar foi evacuada pelo Esmad no final da tarde, enquanto em cidades como Suba e Kennedy houve confrontos, danos às estações de transporte público TransMilenio e roubos em armazéns. O quadro foi semelhante no centro de Cali, em várias estações do Mío (similar ao BRT, no Brasil) e em algumas áreas comerciais.

No meio deste cenário complexo, às três horas da tarde, a Prefeitura de Cali decretou o toque de recolher. A medida visava controlar a insegurança na cidade, mas era também a declaração de um estado de risco. Um dia depois o mesmo aconteceu em Bogotá: inicialmente foi decretado em algumas localidades, mas logo depois foi estendido a toda a cidade. Foi a primeira vez que isto aconteceu em ambas as capitais desde os anos 70.

“Nós” contra o “outro”.

Além das diferenças de tempo, modo e lugar, o que aconteceu em Cali e Bogotá foi muito semelhante. Os protestos, o vandalismo e os saques levaram à declaração de uma emergência oficial. A esse fato, que as autoridades indistintamente enquadraram como um problema de ordem pública, juntou-se a indignação dos manifestantes, para quem o toque de recolher foi uma forma de silenciar o protesto. Havia paranoia, medo e incerteza.

Com o passar das horas – quinta-feira em Cali e sexta-feira em Bogotá – as ruas foram sendo desocupadas e as pessoas se refugiaram em suas casas por causa do toque de recolher. O espaço público era terra de ninguém; o lar era o único lugar seguro. Neste contexto de fragilidade e sensação de risco, a desinformação se espalhou como pólvora no Whatsapp: o vandalismo que tínhamos visto na televisão chegaria diretamente na sala de estar.

Áudio que circulou no Whatsapp

Apesar da falta de verossimilhança de algumas destas mensagens, a ameaça que elas representavam era contundente: estava ligada aos eventos do dia, ocorria em um estado de ordem pública excepcional, e alimentava o medo de outras comunidades e setores da cidade. Como explicou La Silla Pacífico, no caso de Cali, a desigualdade social e o medo dos pobres definiram o “outro”. Em Bogotá, surgiram agressões contra venezuelanos (ver aqui uma análise detalhada). O contágio não era resultado da ignorância, mas de preconceito, como tem sido analisado em outros países nos casos de boatos difundidos pelo Whatsapp.

A narrativa que vimos a partir de então foi bastante clara: havia vândalos circulando pelas ruas e entrando em complexos e unidades; a polícia tinha ido embora; os vizinhos tinham que se organizar e se defender. A ameaça era concreta, talvez não diretamente, mas com alguém próximo: aconteceu com meu primo, meu vizinho viu, um colega relatou.

Áudio que circulou no Whatsapp

Várias das correntes de Whatsapp que identificamos continham instruções que as pessoas começaram a seguir à risca: você tinha que usar camisetas brancas para se diferenciar dos bandidos; você tinha que se armar com bastões, varas e até armas, e se revezar com seus vizinhos até de madrugada. A calma aparente foi realmente o prelúdio de um ataque.

Áudio que circulou no Whatsapp

O testemunho das próprias pessoas e de estranhos gera um contágio emocional e reforça a convicção de que se está enfrentando uma ameaça. Como Damon Centola explica, o valor da conduta aumenta à medida que outros a adotam, aumentando assim a credibilidade e legitimidade do ato. Isto explica em parte porque em Bogotá foram ignoradas as lições tiradas de Cali na noite anterior: a convicção e o pensamento grupal funcionaram inconscientemente como anticorpos; simplesmente não digerimos esta informação.

meme 1:
não atirem
sou de outro complexo

meme2:
Estão vindo… estão vindo…
Quem??? … Não sei, mas estão vindo…

Legenda: ‘Memes’ que circularam nas redes sociais. Sobre este assunto, veja o artigo de La Silla Académica, “Memes na greve mostram o poder libertário, mas perverso, da internet”.

A difusão social foi acompanhada por um isolamento físico que também foi projetado nas comunidades digitais. Ou seja: a ameaça externa, reforçada e alimentada por rumores vindos do exterior, transformou as unidades ou complexos residenciais, e os grupos digitais onde se reúnem – as redes próximas -, em ilhas.

O instinto de sobrevivência rompeu qualquer bolha política ou religiosa daqueles que compartilhavam esse espaço; o “outro” não estava mais definido no espectro ideológico. Nesta situação extrema, os vizinhos eram uma microrrede de confiança estreita, unidos na defesa do seu território.

Print do whatsapp:
Admin Monteclaro: Senhores proprietários, a administração informa que, considerando a situação do país e que estamos imersos no problema, os manifestantes estão entrando agressivamente nos complexos residenciais. O conselho e a administração estarão atentos, e os alarmes soarão se precisarmos de seu apoio e compromisso.
A administração, o conselho e o comitê de convivência estão testando o alarme.
Seguimos em testes.

Legenda: Grupo de Whatsapp de um complexo em Suba, um exemplo das microrredes de contágio e mobilização que se formaram em diferentes bairros de Bogotá.

Tanto em Cali quanto em Bogotá os relatos de vandalismo, correntes de mensagens e chamadas à ação entraram nas redes sociais à noite, quando já era evidente um estado de contágio entre os cidadãos. No Twitter, a conversa em torno do assunto cresceu por volta das sete horas da noite e diminuiu por volta da meia-noite.

Legenda: Conversa em Cali no Twitter no dia 21 de novembro a partir das 15h. Por volta das sete horas da noite o tema dispara (termos de busca: vândalos OU vandalo OU vândalo ou vandalos E complexos OU condomínios OU unidades OU residenciais OU vizinhos). Fonte: Sysomos.

Legenda: Conversa em Bogotá no Twitter no dia 22 de novembro a partir das 14h. Por volta das oito horas da noite o tema dispara (termos de busca: vândalos OU vandalo OU vândalo ou vandalos E complexos OU condomínios OU unidades OU residenciais OU vizinhos). Fonte: Sysomos.

Alguns de nós, que vivemos o que aconteceu em Bogotá na noite de sexta-feira, dia 22, experimentamos um sentimento de dependência e desamparo. Às 22h, as transmissões de notícias terminaram, as vozes oficiais pararam de transmitir reportagens e muitas fontes confiáveis desligaram seus telefones celulares. O Twitter tornou-se então um território livre para especulação e desinformação, juntamente com o desejo das pessoas de saber mais.

A acadêmica americana Natasha Dow Schüll compara o vício nas redes sociais aos cassinos. Após um tempo de uso, o indivíduo entra na ‘zona de máquina’, um cansativo fluxo de ação e atenção que não pode ser facilmente abandonado e onde a autonomia tende a ser perdida. Presos por todo o tipo de emoções, muitos dos que tuitaram e compartilharam estavam abstraídos no ciclo da rede social.

Houve uma ação coordenada?

O fato de que a mesma coisa aconteceu tanto em Bogotá como em Cali indica que pode ter havido algum tipo de coordenação para incitar o medo e a ansiedade. Há vários elementos claros: áudios idênticos nas versões masculina e feminina, vídeos reciclados que foram usados como prova de vandalismo em ambas as cidades, e testemunhas que foram de fato intimidadas pelo mesmo “modus operandi” dos indivíduos que passavam pelos complexos.

No entanto, se este plano ocorreu, foi desenvolvido principalmente nas horas que antecederam a crise da noite e através do Whatsapp. Na conversa que monitoramos no Twitter, não há uma coordenação clara. Também não detectamos ações conjuntas de bots ou de contas do tipo ‘call center’.

Revisamos quase 70 mil tuítes entre as 15h e a meia-noite de sexta-feira, dia 22, onde foram feitas denúncias ou atos de vandalismo, e descobrimos que 91% das contas produziram apenas um tuíte. Dos 9% restantes, apenas 28 contas têm mais de cinco tuítes. Ou seja, não houve produção em massa de tuítes a partir de nós concentrados.

De maneira complementar, analisamos as primeiras denúncias no Twitter sobre vandalismo em Bogotá, no início da tarde de sexta-feira, dia 22, em áreas como Molinos, Chicalá, Suba e Parques de Bosa. O que encontramos foi uma atividade orgânica de contas que queriam alertar as autoridades ou a mídia.

Legenda: Rede de contas mencionadas por usuários que denunciaram vandalismo ou saques na tarde do dia 22, entre as 15h e as 16h. Os nós mais centrais correspondem às contas mais mencionadas. As que têm muitas conexões foram mencionadas simultaneamente em um mesmo tuíte. Nenhuma ação coordenada de ‘retuítes’ é vista em contas desconhecidas (se assim fosse, elas estariam no centro do mapa). Pelo contrário, a conta principal é @Citytv, por meio da qual – devido à sua ampla cobertura das marchas – milhares de cidadãos fizeram as suas denúncias.

Também não encontramos nenhum apoio às denúncias feitas no Twitter. Na sexta-feira à noite, por exemplo, Gustavo Petro denunciou a existência de contas falsas que estariam semeando o pânico. Logo depois, as influenciadoras Calle e Poché – cujo canal do Youtube tem mais de sete milhões de seguidores – explicaram ao senador que foi a sua comunidade de fãs (conhecidos como “catchers”), que havia compartilhado a mesma mensagem em resposta a um pedido de apoio. Na verdade, analisando-as a partir de vários protocolos de detecção de contas falsas, conclui-se que não são falsas.

Tuíte: Sr. @petrogustavo Inacreditável que não se informe antes de afirmar algo assim. Não são contas falsas. São nossas seguidoras que, no meio do caos, ficaram assustadas e difundiram, como muitos outros, orientações tentando ajudar.
Que baixo classificar as meninas como terroristas. É fácil de verificar.
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Olha como semeiam o pânico através destas contas falsas. Isso se chama terrorismo, mas o ministério não vai investigar. Com informações falsas de assaltantes em edifícios, o desejo de mudança dos cidadãos é paralisado.

Legenda: As influenciadoras Calle e Poché dizem a Gustavo Petro que as contas que difundiram a mesma orientação são fãs. Fonte: Twitter / @calleycpocheoffi

Além do que pode ter acontecido nas horas anteriores à crise e na conversa de Whatsapp que não podemos observar, o que estava no Twitter em Cali e Bogotá era uma mistura de amplificação irreflexiva, medo orgânico e oportunismo.

Líderes políticos e de opinião de diferentes vertentes contribuíram para espalhar o mesmo medo: na quinta-feira Gustavo Petro convidou a comunidade a se organizar, e um dia depois foi Maria Fernanda Cabal quem alertou sobre os planos de saque e fez um chamado semelhante. Em outros casos, jornalistas como María Jimena Duzán questionaram a utilidade do toque de recolher diante do que parecia ser uma cidade acorrentada.

Embora o vandalismo sempre tivesse sido enquadrado como um efeito colateral das manifestações, em algum momento da noite alguns youtubers e influenciadores começaram a falar de uma suposta conspiração das “forças públicas” para espalhar o pânico e vender segurança. Agora o “outro” era também a polícia ou o Estado.

Por volta das 23h de sexta-feira, o prefeito Enrique Peñalosa pediu calma, mas também falou de uma “campanha orquestrada para criar terror”. A sua declaração acabou parecendo um grande ponto de interrogação. A desconfiança e a especulação misturaram-se com a vergonha de ter entrado em pânico tão facilmente.

O 21N e 22N (dias 21 e 22 de novembro) em Cali e Bogotá já fazem parte da história das duas cidades, como o panelaço que ocorreu no país. Para muitos de nós, foi uma noite frenética que ainda não entendemos. E enquanto muitas dúvidas permanecem, uma coisa é clara: em condições extremas, e em meio a um ambiente de desconfiança e suscetibilidade, o pânico é viral e o medo é o verdadeiro influenciador.

*A Sala de Democracia Digital é uma ação da FGV DAPP, em parceria com Chequeado, na Argentina, Linterna Verde, na Colômbia e Ojo Público, no Peru. Nós monitoramos o debate público nas redes sociais pela América Latina.

A análise original está disponível no site do Linterna Verde aqui.

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